30 de abr de 2011,23:59
QUINQUAGÉSIMA SEXTA LEVA




Retalhos
Ilustração: Manoela B. Costa







CICERONEANDO



Frequentemente nos deparamos com reflexões sobre a importância de se continuar um caminho. E se esse mesmo caminho referir-se a essa complexa estrada chamada cultura, saberemos, pois, de um sem número de discursos favoráveis ou não à sua permanência. Falamos aqui das dificuldades encontradas por quem deseja tocar qualquer projeto adiante nesse terreno. Uns argumentam contra a gestão pública da cultura nacional e enumeram um cardápio completo de dificuldades; outros preferem arregimentar as coisas de modo próprio, imbuídos de razões que perpassam as regiões mais fronteiriças do sonho. É um tanto óbvio que não se pode fechar os olhos às limitações existentes no ramo, muitas delas relacionadas ao fato de que algumas valiosas ferramentas estão sob o controle de poucos, seja econômica ou ideologicamente falando. Mas nada disso deve ser capaz de deter por completo o ímpeto presente em tantas e tantas alternativas dispersas pelo nossa continental nação. Em meio a certa dose de descrença, surgem iniciativas capazes de suplantar o pessimismo de alguns. São projetos de toda a monta, desde sites e periódicos impressos até ações que interferem diretamente na rotina dos mais diversos grupos sociais, tais como os movimentos de fomento à leitura presentes em algumas regiões do país. Cada uma das pessoas que deixa de lado o negativismo de plantão, não aposta somente no sonho, mas também numa perspectiva de transformação que envolve a si mesmas e aos outros. É uma espécie de agir que harmoniza o ambiente íntimo das mais diferentes personalidades ao panorama externo que o mundo propõe. Então, é fundamental acreditar no poder contido no ato de realizar, pois este transcende a realidade imediata dos dias. Fazer com que as coisas aconteçam significa verdadeira questão de ordem para quem deseja evitar que a existência escoe rumos aos porões da negligência e do comodismo. Dedicação e busca constante da qualidade podem fazer a diferença aos que desejem atravessar as procelas dessa jornada. A arte redime porque nos estimula ao exercício constante do autoconhecimento. Nesse processo, o olhar se renova a cada novo lampejo de descoberta. A Leva de agora traz algumas experiências nesse rumo. Que o digam os versos de Prisca Agustoni, Wilton Cardoso, Fátima Venutti, Maximiliano Daponte, Elizabeth Hazin, Márcia Sanchez Luz e Gabriel Felipe Jacomel. Vide os aspectos oníricos presentes nas ilustrações de Manoela Boianovsky da Costa. Noutro ponto, chama-nos a atenção as ideias contidas na entrevista com o escritor Nilto Maciel. Repletos de epifanias do cotidiano, estão os contos de Larissa Amaral, Leonardo Villa-Forte e Priscila Miraz. O olhar íntimo de Larissa Mendes resenha o filme Incêndios. Pelos recantos de sua 56ª edição a Diversos Afins respira profundas vontades de permanência.


*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.




JANELA POÉTICA (I)


INVERNO

Fátima Venutti


Bordo metades de mim a nanquim
a céu aberto queima-roupa


Cuspo vazios
em torres imaginárias

e me envergo a cada
sonho esquecido


Dia seguinte

amanheço salgado em tédio


Barganho metades por poemas

esquinas, praças, convés

Na praça da matriz, vendaval

em meu interior, retalhos rumam sul


(Fátima Venutti nasceu em São Paulo. Hoje reside em Blumenau/SC. Em 2004, associou-se à Sociedade Escritores de Blumenau - SEB e, em 2007, esteve presidente da entidade. Em 2006, foi convidada a ocupar a cadeira nº11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell na Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC). Publicou os livros “Último beijo/ Último Beso”, Ed. THS Arantes, S. José Rio Preto/ SP – Poemas, “Terceiro Apito“, Ed. Nova Letra, Blumenau/SC, 2007– Contos e Crônicas e “Tempestade”, Ed. Nova Letra, Blumenau/SC, 2010– Poemas)






Because
Ilustração: Manoela B. Costa






CAPITAL

Priscila Miraz


Depois do segundo metrô os rostos são ilusões de familiaridade que não se cumprimenta: espreita e imagina. Não ignora. Os mais à vontade detém o domínio da conveniência do cinismo. Mas não se ignora. É sofrido nos ombros, nos joelhos, no pescoço, nos punhos, nos tornozelos, nas falanges, esse reconhecimento, esse desdobramento. Depois desce na estação da Sé. O mundo desce na estação da Sé. Sem perceber já se está trincando no gosto, no tempo, na vontade. Trinca que desenha um rio no concreto. Abala a resistência à cidade, e não sabemos o que foi. O que aconteceu. Depois já é tarde demais. Já fomos inundados quando percebemos num assombro como é triste a agonia de um rio. Fugindo, aquela era a vida fendida abalada fornicada culpada prenhe. O barco repintado de branco e vermelho jogado nas margens do Tietê é acompanhado dos descuidos. E de repente é silêncio e paralisia na marginal do Tietê. É o silêncio de dentro daquele barco escuro, o silêncio impossível despregado da camada de tinta tão grossa que se pressente, a sua espessura. Todo mundo olha e a membrana de casas amontoadas estica maleável sua promessa de continuidade. A membrana tensiona e não saímos nunca. Não saímos mais. A cidade é feita das belezas obstruídas. A cidade comove. A cidade dói. A cidade é feia das belezas obstruídas, a cidade.


(Priscila Miraz de Freitas Grecco natural de Assis, SP, é mestre em História da América pela UNESP – Assis. Teve contos publicados pelo jornal literário de Curitiba, Rascunho, pelas revistas eletrônicas Germina e Caderno Literário. Participou também de duas coletâneas da editora Pragmatha, O imaginário do mar e do navegador, e Cardeno Literário III-Meio Ambiente)





Lola
Ilustração: Manoela B. Costa






JANELA POÉTICA (II)


HOMBRE AGOTADO

Maximiliano Daponte


Hombre agotado,
Con la cara como un mapa
Del continente africano:
Tu meca, tu destino.
Ojos cansados,
Como viviendo otro siglo
De tardes como niño,
Noches de joven
Y mañanas ya mayores,
De lecturas y acertijos.
¿Quién podrá domeñar
Tu cielo y tu infierno
Y volverte tierra
Y volverte polvo?


(Maximiliano Daponte vive em Buenos Aires. Tem participado da publicação da revista literária Megafón e publica ensaios em revistas literárias impressas e digitais. Atualmente, trabalha na publicação de seu primeiro poemário)




DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Larissa Mendes


Incêndios (Incendies). Canadá. 2010.


“A morte nunca é o fim de uma história”.


Os quase quatro minutos da íntegra de You and Whose Army?, melancólica canção da banda Radiohead, fazem da cena introdutória de Incêndios, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011, um oportuno videoclipe: um grupo de crianças reunidas para o alistamento de um exército incógnito. Apesar do discurso aparentemente político, o longa-metragem canadense revela-se uma trama emocional, no qual o sentimento de culpa e a busca incessante pela verdade são variáveis de uma mesma equação matemática.

O enredo é instigante: durante a leitura do testamento da secretária Nawal Marwan (Lubna Azabal) pelo seu chefe e tabelião Jean Lebel (Rémy Girard), os gêmeos Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Maxim Gaudette) recebem duas incumbências póstumas da mãe: entregar uma carta para o pai (que julgavam estar morto) e outra para o irmão (que nunca souberam da existência). Somente após o cumprimento destas tarefas poderão abrir um terceiro envelope destinado a ambos. Enquanto a filha recebe a missão com comprometimento e parte prontamente para o Oriente Médio (o país de origem da refugiada Nawal não é mencionado, mas tudo leva a crer que seja o Líbano) em busca das raízes da mãe, seu irmão reluta em deixar o Canadá. A jornada, repleta de mistérios gradativamente desvendados, tem um desfecho arrebatador, digno dos mais arquitetados suspenses, inclusive no que concerne a causa mortis de Nawal.

Falado em língua francesa, o quarto filme do cineasta Dennis Villeneuve é baseado na aclamada peça do libanês Wajdi Mouawad. A densidade do drama (característica, aliás, dos cinco concorrentes da categoria, vencida pelo dinamarquês Em Um Mundo Melhor) é alternada entre presente (2009) e passado (final da década de 70) e apoiada por trilha sonora e fotografia condizentes. Incêndios apropria-se da cruel realidade das vítimas das guerras civis fundamentadas pela intolerância religiosa, representada aqui pelos escombros de uma mãe, que, apesar do amor incondicional que lhes é peculiar, precisa incinerar a identidade que seus filhos acreditavam ter para finalmente reunir a família e encontrar a paz.




(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)





Whispers in the Dark
Ilustração: Manoela B. Costa





JANELA POÉTICA (III)

Elizabeth Hazin


que teus movimentos
cortem o espaço
– pede o poeta –
na frenética busca do infinito
e imprimam na face corrida do tempo
um novo signo

que teus movimentos
marquem com força
o chão duro
a pedra em que se vive
e a inundem de sonho


(Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987) e O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986). No prelo (7Letras), seu mais novo livro, escrito a quatro mãos com Davino Sena: Lêgo & Davinovich. Já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia. Atualmente, é professora de Literatura Brasileira na UnB - Universidade de Brasília)






You can do Magic
Ilustração: Manoela B. Costa






PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


Para definir um bom prosador, são necessárias palavras que se proponham a extrapolar os limites meramente expositivos de qualquer cenário narrativo. Contentemo-nos, pois, numa análise que sabe ir além de um simples artifício de contar histórias. Numa acepção densamente significativa, um contista, mais do que apresentar situações e tramas, deve ser capaz de dissecar o âmago dos seres apresentados. A partir daí, ganha corpo vigoroso uma noção de interioridade que sabe ser ingrediente fundamental de uma proposta textual rica e consistente. E tal perspectiva encontra abrigo no modo de pensar e agir do escritor cearense Nilto Maciel. Detentor de uma trajetória que contempla incursões predominantes na seara da prosa, o autor, natural de Baturité, revela-se um alguém peculiarmente envolvido de modo especial no fazer literário, qual seja o de se apropriar de modo pungente dos elementos presentes em seu espaço íntimo de abstração para depois transformá-los em matéria viva vertida em palavras e outros tantos signos. Nesse processo, Nilto mergulha no universo de sua catarse pessoal, convivendo de frente com a necessidade primeira de isolar-se do mundo até que o produto de sua viagem ao centro de si mesmo seja expelido sob a forma de texto. Alguns de seus livros renderam-lhe premiações de destaque em concursos nacionais e regionais. Sua obra contempla, dentre outros, Itinerário (contos, 1974, Scortecci Editora), Tempos de Mula Preta (contos, 1981, Papel Virtual Editora), Punhalzinho Cravado de Ódio (contos, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará), A Última Noite de Helena (romance, 2003, Editora Komedi) e Carnavalha (romance, 2007, Bestiário). Durante o diálogo do escritor com a Diversos Afins, foi possível compreender certas razões capazes de justificar as imagens que cercam o engenhoso ofício da escrita. Em Nilto Maciel, temos o exemplo vivo e atinente de que escrever, acima de tudo, envolve um criterioso ritual de entrega humana, tudo compreendido num lapso que sabe a desvãos da alma.



Nilto Maciel
Foto: Arquivo pessoal


DA - Muita gente acredita que a única função do conto é a de relatar uma história, aspecto que negligencia a capacidade de transcendência de um texto. Enquanto autor, como você percebe tal discussão?

NILTO MACIEL – É verdade: tanto leitores (é só ver na Internet o número de leitores de sítios de contos lineares, de formato tradicional) como escritores ainda veem na história com começo, meio e fim, enredo claro, narração e diálogo (os velhos travessões e verbos dicendi a torto e a direito), personagens bem delineados, etc, o único ou o verdadeiro modelo de conto. Não sei se se discute isso. Não conheço artigos ou ensaios que tratem desse assunto. Para mim, o conto pode ser elaborado a partir de um modelo. E os modelos são muitos: o de Tchekhov, o de Poe, o de Maupassant, o de Joyce, o de Cortázar. No Brasil temos novo modelo (não tão novo, vem de Rubem Fonseca), que é o conto que tem como assunto a violência urbana. Transposto para o cinema,virou febre. É um filme atrás de outro, com a mesma receita e os mesmos ingredientes: muita bala, muita matança, muito morro, muito bandido, muito policial, muito ódio. Na literatura significa cópia de reportagens. Por isso, os escritores dessas histórias não se preocupam com literariedade. Para eles, literatura é arte de escrever. Se assim é, nem precisa estudar, ler, pesquisar. O computador se encarrega de registrar a fala e corrigir o óbvio. Só isso. Basta ter coragem de expor as mazelas do homem e da sociedade. O resto que se dane.


DA – Subjetivamente falando, é possível conceber o contista como sendo um verdadeiro engenheiro de ilusões?

NILTO MACIEL – O contista, como o romancista, é, sim, um engenheiro de ilusões. Não apenas das ilusões contidas nos enredos, nas tramas. Mas das ilusões escondidas nas entrelinhas, atrás de véus, debaixo de panos ou papéis. Não a ilusão palpável da vida, do viver, mas a ilusão diáfana da poesia. Sim, sem poesia o conto não se faz arte; amolda-se ao método da reportagem, da informação, do jornalismo. Falo de aparência e exterioridade. Sem ambiguidade e interioridade não há arte, não há conto. Contar, apenas, é fácil. Compor um conto é outra história (desculpe o trocadilho).


DA - Talvez não seja tarefa fácil absorver os excessos contidos na pós-modernidade, algo que poderia até mesmo escamotear sentidos essenciais. Nesse aspecto, como o torvelinho de imagens de mundo movimenta seu processo criativo?

NILTO MACIEL Tenho falado muito de memória. Não sei se estou certo, mas acredito que obra de arte nasce na memória. Sendo assim, pergunta-se: Como teria sido nos primórdios? Ora, a memória literária não vem apenas dos livros, das inscrições rupestres, dos papiros, dos palimpsestos. Há também a memória oral. Tenho certeza de que só escrevo o que vi, ouvi, li, senti. Nada invento. A criatividade não vem de geração espontânea. Por isso, é preciso ter tido infância. Dirão: todos tivemos infância. Sim, mas nem todos conseguem abrir o baú e dele retirar quinquilharias, pedacinhos de pano, pó invisível. E é preciso ter lido muito. Borges recomendava a leitura de apenas cem livros essenciais. Não se referia, porém, à memória. Porque a cartilha é tão essencial como um tratado de filosofia. A imagem no cinema, na televisão, no computador é apenas estopim para mostrar imagens apagadas, soterradas, esquecidas. Não sou teórico, sou apenas escritor. E escritor é aquele que não conseguiu ser cientista, pesquisador, inventor. O que não sabe explicar porque a aranha tece a teia. Alguns não se aceitam tão pequenos e escrevem ficção científica. Acham que são, sim, cientistas.


DA - Acredita que para um autor há limites na utilização dos recursos da memória afetiva?

NILTO MACIEL - Os limites existem, porque somos limitados. Se pudéssemos utilizar todos os recursos da memória afetiva, a obra de arte seria muito mais vertical. Escritores verticais são Dostoievski, Machado, Kafka, Virginia Woolf, Clarice Lispector. Outros, os que se esmeram na horizontalidade da fala e dos atos, são meros descritores de paisagens e narradores de movimentos sempre repetidos dos seres que povoam as paisagens. São apenas cronistas de seu tempo. Pois cronistas todos o são. Machado é o cronista vertical do Rio de Janeiro do século XIX.


DA - No romance Carnavalha, você explora com densidade traços que ajudam a mostrar um painel de nossa contraditória brasilidade. Como surgiu a ideia de construir uma narrativa que, mesclando elementos trágicos e cômicos, provoca-nos a todo instante?

NILTO MACIEL Todo escritor acalenta o sonho de erigir uma obra monumental. Alguns não perdem tempo com acalantos e desde cedo iniciam a construção de suas pirâmides de Gizé. Faraós da palavra, chamam-se Cervantes, Dante, Shakespeare e outros. Eu bem que tentei, sonhei, fiz escavações. Não consegui, como a maioria. Carnavalha foi uma das últimas tentativas de levantar pequenas tumbas para meus pequeninos personagens, saídos do fundo da memória. Palma já existia e está em quase todas as minhas narrativas, principalmente as mais longas. Os seres que a habitaram são mortos sem tumbas. Carnavalha (carnaval em Palma) é também um pouco de tragédia, um pouco de comédia. Um pouco do Brasil, um pouco de mim.


DA - Mas será que é realmente importante construir uma obra monumental?

NILTO MACIEL – Na pergunta, dois adjetivos equivalentes. Ser importante é ser fundamental, básico, necessário. Acho que é nesse sentido a questão. Dizem alguns teóricos que tudo é importante, toda obra literária é necessária, mesmo a mais rudimentar, a mais medíocre. Porque é dela que surgirá a obra maior. Sem as novelas de cavalaria não existiria Dom Quixote. No entanto, vem mais uma pergunta: Não estariam os autores daquelas histórias também imbuídos da vontade de erigir castelos monumentais? João de Lobeira (ou quem quer que tenha sido o autor do Amadis de Gaula) certamente se sentia um criador de mundos. E o foi, em certo sentido. Quem sabe, um dia surgirá o Cervantes que irá recriar Palma e escrever um romance monumental.


DA - Ao mesmo tempo em que trouxeram facilidades, as mídias eletrônicas externaram também uma verdadeira obsessão de muitos autores em serem reconhecidos, lidos, comentados a qualquer custo. Essa dinâmica frenética não acaba criando um relativismo conceitual e estético um tanto perigoso no que tange às criações?

NILTO MACIEL – É muito natural a vontade (mesmo que obsessiva) de ser lido, comentado e reverenciado. Quem não quer? Até aqueles que se fazem reclusos em casa e se dizem avessos a entrevistas, “badalações”, festinhas literárias como lançamento de livro, feira, simpósio, seminário, etc, até esses, no fundo, querem mesmo é fama. Ocorre que quem vive em salões (bares, clubes sociais, academias, redações de jornais) termina se esquecendo de ler e escrever. Se já não é tão talentoso (usarei este adjetivo para não estender demais minha opinião), vivendo essa vida de cortesã ou cortesão, sua literatura será como a bolha que escapa do chope. Em alguns, essa neurose os torna até perigosos. São como aqueles loucos das piadas que se dizem Napoleão Bonaparte.


DA - Com o advento da internet, o seu fazer literário mudou bastante ou ainda preserva hábitos marcantes de outrora?

NILTO MACIEL – Sim, meu fazer literário mudou muito desde os anos 80, quando adquiri um computador doméstico. Quase nada restou do meu modo de ser leitor/escritor. Antigamente (parece que faz tanto tempo!), eu escrevia em folhas de papel e cadernos. Uma loucura. Sobre a mesa, tudo espalhado. Anotava ideias separadamente. Uma frase aqui, uma ideia ali, um nome de personagem acolá. Porque o pensamento é lépido demais. E temos apenas duas mãos (só uso a esquerda). Agora está melhor, porque digito com as duas. Mas a memória ainda é o baú principal. Costumo escrever quando me deito para dormir. Porque não me deito para repousar ou descansar. Isto é para cavalos, jumentos, cachorros, gatos, leões. Deito-me para pensar e, em seguida, dormir. Às vezes, não consigo dormir. Passo a noite a pensar (escrever mentalmente). Quando acordo, imagino que sonhei. Mas não foi sonho, foi elaboração mental consciente. Acordado, relembro tudo (ou quase tudo) o que imaginei (escrevi) e digito sob um título provisório: “Conto do homem que olhava formigas”. São dois tipos de anotações: o como será o conto (na primeira ou na terceira pessoa, dois ou três personagens, com ou sem diálogos, etc) e a própria história. Muitas vezes não consigo me libertar daquele conto e passo o dia a elaborá-lo. Em dias assim, não me alimento, não me banho, não atendo chamados, não saio de casa, não ligo televisão. Quando cuido, estou caído no meio da sala, morto de fome, sujo, completamente envolto na loucura, a delirar. Por isso, preciso viver só. Quando vivia com mulher e filhos, precisava me controlar, me policiar, ser normal. Agora posso assumir minha anormalidade, sem medo.


DA - E como andam as perspectivas atuais? Está trabalhando em alguma obra nova?

NILTO MACIEL – Quem escreve só deixa de escrever quando morre. Alguns continuam escrevendo até depois da morte (dizia Chico Xavier). Se algum médium puder copiar meus ditados, prometo ditar com paciência. Há um ano, mais ou menos, rabisco um romance. Está todo arquitetado, mas poderá se modificar. Como dizem, alguns personagens costumam crescer; outros, minguar. Voltei à primeira pessoa. Os leitores poderão até dizer: O narrador é o próprio autor. Não deixa de ser.


DA - Afinal, o que se busca com o ato de escrever?

NILTO MACIEL – Uns buscam fama, dinheiro, reconhecimento. Outros querem dizer: eis-me, existo, existi. E tudo passa, passará. A fama poderá resistir ao tempo, até depois da morte. Para quê? O dinheiro virará fumaça. Os escritores morrem, seus nomes viram verbete. Algumas obras ficaram e ficarão. Até quando? Depois a humanidade desaparecerá e a Terra será habitada apenas pelos “seres inferiores” que não leem e não lerão. Portanto, o que se busca não passa de pó. E, quando Deus der o sopro final, todo o pó voará pelos ares e se perderá na imensidão das galáxias. Na verdade, não acredito na existência de Deus. Se existe, existirá para sempre. Sem literatura, porém.




Cacatua
Ilustração: Manoela B. Costa




JANELA POÉTICA (IV)


HEARTSTEALING

Gabriel Felipe Jacomel


nossa vã prisão o máximo
frágil quão caixão torácico
vendo o Sol nascer rajado
nessas grades de costela

ah! se os punhos fossem limas
se as promessas fossem sérrias

fugiria com tuas rimas

por quilômetros de artérias


(O catarinense Gabriel Felipe Jacomel é performer e sua produção transita por diversas mídias. Edita, desde meados de 2010, o blog faziafagiaebulimia, com seus escritos mais recentes)




I Want You
Ilustração: Manoela B. Costa




PASSA, PASSA

Leonardo Villa-Forte


Enquanto aquilo acontecia era gente que aparecia e trazia consigo uma curiosidade que se renovava na gente aglomerada. Peraí, dexeupassar, oquequihouve?, caramba meu Deus. De três passou pra cinco que passou pra dez que passou pra vinte que passou pra cinquenta e não parou por aí. Era um empurra, era um esbarra, um querovertambém tal qual só podia ser tragédia.

Parado o trânsito.

Um apito abafado soava irritado atravessado pelo vozerio que parecia compor uma parede de névoa maciça. A parede de névoa era a própria barreira do povo distante que se não conseguia enxergar com os olhos muito menos se esclarecia com os ouvidos. Disseram que foi acidente, disseram que foi maldade, disseram coitadinho e que coisa. Ninguém ouviu certeza de morte, mas se já diziam que havia sangue na pista.

Acontecia e não vinha ambulância o que dirá bombeiro. Aqueles de trás gritavam se tinham chamado, os da frente respondiam que não havia necessidade e os de trás se perguntavam como não, se tinha gente morta se tinha sangue na pista, e então se bandeavam pra frente com as inquietações multiplicadas. Quando lá chegavam se admiravam e exclamavam silêncios só interrompidos ao avisar pros de trás que não havia necessidade.

Alguém perguntou se anotaram a placa, ninguém respondeu se anotaram a placa. Um falou que foi moto não foi carro.

Não tem mais jeito, já diziam, mas que bonito. Ninguém queria perder aquela cena, ela checando se ele reagia, ela esfregando a cara nele. Pediam pra parar com o empurra-empurra, o empurra-empurra não parava e uma moça que estava ali bem perto foi jogada pra cima do corpo e por sorte conseguiu pular. O moço do lado se exaltou e reclamou com o povo de trás que se acalmassem que ninguém queria assustar a cachorra.

A cachorra que já com a boca delicadamente cravada na pata do morto puxava o seu corpo. Puxava devagar e com cuidado, trazendo mais pra perto do meio-fio, arrastando mais pra longe do meio da pista.

Desabocanhou já na calçada e passeou o olhar pela multidão que em sua minoria se enterneceu e quis levá-la pra casa; em sua maioria se desinteressou e deixou a cachorra em paz, a cachorra que só foi lamber as feridas quando os carros voltaram a passar.


(Leonardo Villa-Forte é tradutor e colaborador editorial. Pesquisador literário da produtora Plumagenz, formou-se em Psicologia pela UFRJ, e estudou literatura em Salamanca, Espanha. Já publicou contos em sites como o Fórum Virtual de Literatura e Teatro da UFRJ e outros. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio Off-Flip 2009 pelo conto "Monólogo a dois", o qual foi publicado no livro coletânea do prêmio em 2010. Em 2010 criou o projeto de literatura remixada MixLit. Nascido em 1985, mora no Rio de Janeiro)





Infinito Particular
Ilustração: Manoela B. Costa






JANELA POÉTICA (V)


ANIMAL POETRY

Wilton Cardoso


Há quem pense que os poetas pensam,
eles não pensam, costumam ser um desastre intelectual.
Há quem pense que os poetas são eruditos refinados...
Alguns, mas muitos são apenas vagabundos da cultura:
ardilosos, se passam por doutos.
Há quem pense que os poetas têm o poder
de sondar os abismos da palavra,
da alma e da cidade dos homens,
quando apenas vagam perdidos na superfície dos mares,
como piratas vis e violentos, sedentos
por roubar o tesouro dos homens
e torrá-lo em orgias nababescas.
Há quem pense que os poetas são sensíveis...
Isto eles são, mas sem sutileza.
Sim, os poetas são sensíveis, de uma sensibilidade brutal.


(Wilton Cardoso mora em Goiânia-GO. É poeta e ensaísta e publica suas obras nos blogs minutos de feitiçaria e vida miúda)






OUVIDOS ABERTOS

Por Fabrício Brandão

LEO CAVALCANTI – RELIGAR



Ao contrário do que se pode imaginar, a chamada nova cara da MPB nem sempre traz a tão sonhada ideia da renovação por inteiro. Isso parece ser, de fato, um desafio que se afigura imenso aos olhos dos novos cantores e compositores, qual seja o de passar ao largo de uma tendência uniformizadora no quesito criação. Longe de se exigir revoluções mais vorazes, o conceito de originalidade pode, sim, fazer a diferença. E há quem consiga promover isso com acerto. Eis, por exemplo, o caso do paulista Leo Cavalcanti que, em seu disco de estreia, ousa nos atrair com seu potencial inventivo repleto de sugestões musicais agradáveis de se escutar.

Leo constrói em seu primeiro álbum uma verdadeira viagem melódica através de suas canções. Seja na escolha precisa dos arranjos, que contam com elementos compostos por cordas, percussões, ritmos eletrônicos e outros tantos, seja na mensagem existencial que brota de suas letras, a noção de equilíbrio e harmonia confere ao disco uma qualidade inquestionável. O título Religar é de um acerto tamanho, daqueles bem dignos de uma obra que se pretende diferenciada. Mais do que apontam os dicionários, a definição desse verbete se encaixa no trabalho do artista como uma forma ampla de estabelecer novas conexões com as infinitas possibilidades sonoras.

É muito difícil encontrar algo semelhante ao que vemos e ouvimos em Religar. Através das faixas do disco, os adjetivos multiinstrumentais de Leo conferem um cuidado valioso a tudo o que se sente por ali. Apesar da qualidade predominar por todos os cantos, merecem destaque as canções Inalcançável Você, Dentro, Dissabor e Sem (Des)Esperar (com a participação especial de Tulipa Ruiz). Noutro momento, a canção que leva o nome de batismo do disco, além de promover um percurso poético pelas imagens subjetivas da vida, conta com um arranjo instrumental bastante vigoroso. Num diálogo de tons reflexivos com a existência, Leo Cavalcanti dá forma a um trabalho eclético, verdadeiro mosaico de sentimentos que perpassam questões complexas da seara humana. Não há dúvida de que o caminho está mais do que aberto aos oportunos signos da novidade. Se reinventar o mundo já é preciso, reconectar sentidos também o é, principalmente se isso apontar para o resgate de nós mesmos.


* Clique aqui e abra seus ouvidos ao artista




O Ninho
Ilustração: Manoela B. Costa




JANELA POÉTICA (VI)


TRAIÇÃO

Prisca Agustoni


uso uma língua
de respiração incerta,

pois não percorre
..
..nem a medula
..
..nem a torção ....................
...................do verbo


: já não sabe amputar os rostos

ainda vivos nos retratos

e deserta em mim a voz



(Prisca Agustoni nasceu em Lugano, Suíça, onde se iniciou à poesia e às artes plásticas. Morou muitos anos em Genebra, onde fez teatro, dança, e estudou Filosofia e Letras Hispânicas na Universidade. Aqui ganhou segunda vida. Poeta e narradora, escreve em português, italiano, espanhol e francês)




Sou sua Sabiá
Ilustração: Manoela B. Costa




A GARRAFA

Lara Amaral


Olhou para baixo e admirou a escadaria de falésias. Ventava tanto que parecia que a natureza queria lhe dar um empurrãozinho. O vento que batia em seu vestido fazia o tecido roçar em seu corpo dando uma sensação prazerosa. O mar à sua frente ondulava a luz refletida da lua que acabara de nascer. Apesar de a natureza distraí-la, ela precisava se concentrar. Não era para admirar a paisagem que estava ali. Tentou lembrar-se do seu tamanho, do tanto que era pequena perto daquela imensidão de mar, céu, areia, breu. Isso a ajudou a se colocar em seu lugar novamente, a se lembrar dos problemas sem solução, da dor sem fim, do desprezo que a vida lhe mostrava diariamente no espelho. Olhou para baixo novamente, não tinha certeza se a altura daquela falésia era suficiente, mas era a única coisa que conseguia fazer. Pulou.

Ela não tinha mais peso, mais medo. Tudo parecia turvo, porém leve. Quando percebeu, estava sem ar. Nadava sem direção, debatia-se desesperada, o peito doía, a cabeça fervia, seu corpo pulsava ardentemente, e aquela angústia inconfundível de estar viva pareceu lhe gritar. Conseguiu voltar à superfície. Quando delicadamente, algo lhe toca a nuca. Uma garrafa de vinho vazia. Ela retira-lhe a rolha, e, como nos filmes de fajutos romances hollywoodianos, lá dentro havia um papel cuidadosamente dobrado. Ela, que nunca encontrara um amor, imaginava como seria se na garrafa tivesse a carta do seu amado. Riu de si mesma pela tolice, mas o desejo de saber o que havia naquela carta a inundou de uma esperança que não sentia há anos. Com o dedo indicador, tentou puxar o papel, mas algo afiado na garrafa cortou-lhe. Ela não sentia dor, no entanto o sangue jorrava de sua mão de forma misteriosa e incontrolável. A garrafa encheu-se do líquido escarlate, submergindo o papel que se movia tonto lá dentro. Ela aproximou a garrafa do nariz e, incrivelmente, sentiu um aroma delicioso de Cabernet Sauvigno­n. Seu olfato a deixou vidrada, seus sentidos se acenderam. Ela, que sempre foi cética, vivenciava uma transformação mágica à sua frente: sangue em vinho. Sorveu, deliciada, todo o líquido da garrafa sem nem mais se importar com a carta. E fazendo do mar sua cama, pôs-se a boiar sentindo-se viva como nunca.

O homem num pequeno barco avista a mulher que bóia. Traz para perto de si o corpo inerte. Repara nos lábios roxos, na testa com um rasgo profundo, provavelmente, colisão com alguma pedra. Ao lado dela, uma garrafa fechada de vinho pela metade. Ele a abre com dificuldade, a rolha se estraçalha. O homem, depois de mais um dia de cão, seco por uma bebida, cheira o líquido: puro vinagre. Ele atira a garrafa de volta ao mar e leva a moça embora. Definitivamente, aquele não era um dia para milagres.




(Larissa Amaral Teixeira
usa o pseudônimo de Lara Amaral como assinatura poética. Nasceu em Brasília em 1986. Formada em Jornalismo, escreve poesia desde os 13 anos e arrisca alguns contos de vez em quando)





Te Devoro
Ilustração: Manoela B. Costa




JANELA POÉTICA (VII)


POETA

Márcia Sanchez Luz


Sou da palavra a chama que descreve
e alisa e abraça as causas mais diversas.

Se for de outrem a dor que não prescreve,

faço-lhe minha amante mesmo em trevas.

Se acaso o sopro me lançar à verve

de uma cantiga envolta em densas névoas,

deixo a cadência se verter bem breve
e transformar em flor dores primevas.


Mas se no equívoco da fantasia

eu acordar de um sonho desvalido,

não vou chorar – conheço a ventania!

Sei que adiante a luz que outrora havia
vai ressurgir até no amor premido

por uma febre ardendo em demasia.


(Márcia Sanchez Luz é escritora, pedagoga, professora e tradutora de Inglês e Francês. São de sua autoria os livros “Quero-te ao som do silêncio” (2010, Editora Protexto), “Porões Duendes” (2008, Editora Protexto) e “No Verde dos Teus Olhos” (2007, Editora Protexto))




Like a Lover
Ilustração: Manoela B. Costa




* Há um limite tênue entre realidade e fantasia na arte da catarinense Manoela Boianovsky da Costa. Em suas ilustrações, a camada dos desejos e dos sonhos materializa-se em tons eivados de mistério e complexidade. É como se a existência fosse remetida a um universo onírico que corre paralelo aos nossos dias. Estudante de Design Gráfico, Manoela, desde a mais tenra idade, deixou-se envolver pela arte de ilustrar. Com o passar dos anos, vem se mostrando uma artista em construção, plenamente consciente de que os caminhos da arte são feitos de uma vivência e aprendizado que se perpetuam através dos tempos.

 
publicado por Fabrício Brandão
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