30 de set de 2011,15:19
SEXAGÉSIMA PRIMEIRA LEVA






Desenho: Constança Lucas





CICERONEANDO


O caminho que perpassa imagens e palavras alimenta auroras, reformula desejos e, sobretudo, aponta para o que há de mais precioso: a reinvenção humana. A arte, sob todas as suas formas, pode tanto redimir quanto transformar os mais distintos sopros de vida. Podemos crer numa nação capaz de mudar seus rumos quando, na acepção primordial de cidadania, vislumbramos também o acesso democrático aos bens culturais. Falemos aqui, pois, de toda a sorte de seres que, com seus múltiplos olhares, emprestam sentidos outros às criações. Independente de qualquer noção de segregação social, cada pessoa guarda em si um precioso potencial de vivenciar as variadas leituras que as manifestações criativas sugerem. Elitizar o saber e o sabor das experiências artísticas significa, sem dúvida alguma, suprimir um vigoroso sentido de revolução passível de se instaurar. Somos responsáveis por um gradual e necessário processo de inclusão cultural. E tal feito só se torna possível quando também deixamos de subestimar o outro. De certa forma, a internet contribuiu em muito para uma “socialização” dos feitos culturais, não apenas no que se refere à perspectiva de manifestação do pensamento, mas também como um amplo painel de leituras de mundo. No entanto, o plano físico também revela suas válidas alternativas, seja na via de projetos ou na busca pessoal conduzida por seus atores. Argumentações à parte, o fato é que temos muito o que devorar e produzir. Entre palavras e imagens, homens devoram-se a si mesmos. Diante desse sentido antropofágico, aprendemos a dar nova vida a letras e outras tantas insondáveis expressões artísticas. Seduzidos por essa dinâmica, organizamos uma edição que se rende aos imperativos poéticos de Adriana Versiani, José Bezerra Cavalcante, Sônia Barros, Nestor Lampros, Nilson Galvão, Remisson Aniceto e Floriano Martins. Nos contos de Maria Lindgren e Petria Chaves, afloram sentidos íntimos do cotidiano. Noutro momento, a escritora Neuzamaria Kerner dialoga densamente com Justine, personagem do emblemático Melancolia, filme de Lars Von Trier. Numa entrevista, o poeta Edson Cruz fala da gênese de seu mais novo livro, dentre outros temas ligados ao ambiente literário. Larissa Mendes convida-nos a percorrer a película espanhola Amador. No aperitivo de W. J. Solha, o novo romance de Carlos Trigueiro nos é ofertado por todas as frentes possíveis. Com seus contornos sublimes, os trabalhos da artista plástica Constança Lucas atravessam todos os espaços da 61ª Leva, conferindo a tudo um significado especial de vida. Uma nova edição nasce com a vontade de que os caminhos sejam guardados sempre com o que de melhor possa advir da beleza humana.



*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.  






JANELA POÉTICA (I)


Código

Adriana Versiani


perdoe-me por não saber amar em outra língua.
estes versos, que me atravessam como uma rua acidentada, não os explico.                         xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx 
perdoe-me por não saber cantar em outra língua.
estes versos, que me iluminam como as pedras que faltam na rua
acidentada, não os traduzo.

perdoe-me por não saber beijar em outra língua.

estes versos que se soltam e me encharcam.



(Adriana Versiani dos Anjos é mineira de Ouro Preto. Tem cinco livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005) e Conto dos Dias (2007) e o virtual Explicação do Fato (2008 – Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. Fez parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato. É editora do Jornal DEZFACES)






Desenho: Constança Lucas







CARTA PARA JUSTINE



Cara Justine.

Quinze de setembro de dois mil e onze.

Há vários dias tento lhe escrever, mas sempre adio sem saber exatamente o motivo da postergação. Talvez eu até saiba... O inconsciente, no entanto, é extraordinariamente protetor em certas situações. Tenho quase certeza de que você sabe do que falo. É possível. Tudo é possível neste mundo nosso de possibilidades. Então, amiga, se é que posso tratá-la assim, fiz alguns malabarismos mentais para driblar o meu inconsciente a fim de deixar emergir pensamentos teimosos que dançavam no meu palco interior e que lutavam bastante para continuarem invisíveis e indecifráveis até o momento em que lhe vi.

Em verdade, esses pensamentos são como seres ou entidades ou sentimentos esdrúxulos que habitam nossas mais abissais regiões. Como nos dão trabalho! O consolo é que eles não estão apenas comigo e com você, mas com todos os seres viventes e pensantes que desde que “encarnam” já vêm com a carga de raiva, tristeza e medo e suas polaridades como se fosse uma maldição passada de geração em geração.

Pois bem, acompanhei seus últimos e impressionantes passos naqueles dias da transformação compulsória – digamos assim, eufemisticamente. Confesso que no primeiro momento da sua aparição não lhe entendi muito bem. Você deveria estar feliz, afinal estava casando com um homem bom e bonito e que parecia realmente lhe amar. Por que você o rejeitou? Será porque você quis poupar-se ou poupá-lo de dores? Ou não o amava o bastante para juntos enfrentarem o que estaria por vir? Seu casamento deu uma espécie de prazer – de hora última - à sua irmã e ao seu cunhado que não economizaram dinheiro nem trabalho para que sua festa fosse a mais linda. Perfeita. Sua mãe, pra variar, transbordava o amargor de sempre; seu pai, amoroso e generoso, mas na dele... provavelmente nunca quis se comprometer com a vida. Talvez aí esteja a explicação do comportamento de sua mãe. Os outros parentes, como todos. Sabe, o seu chefe - pobre coitado -, mereceu os desaforos que você corajosamente despejou sobre ele, um carcará hipócrita, fazedor de dinheiro e que nunca se preocupou com as suas questões existenciais – nem com as de ninguém. Nem nunca atentou para os motivos da irreverência contida nas suas peças publicitárias. Creio que naquela hora você vingou todos os desrespeitados nas empresas sem precisar buscar apoio nos famigerados sindicatos de trabalhadores.

Depois da festa pude voltar a me concentrar somente em você, inclusive lembrando-me da cópula – tenho que dizer esse nome sem graça – com o cara contratado pra lhe arrancar um “slogan”. Parecia que você estava com muita raiva porque sobre a terra você o fez derramar o sêmem que não poderia mais frutificar. Inútil semear numa terra infértil. Você humilhou a mãe-terra. Mas não pense que estou lhe julgando, apenas tentando dizer da minha compreensão. Raiva é raiva, irmã gêmea da impotência. Você estava tão impotente como qualquer pessoa que conhece, sente e capta, pelas pontas dos dedos-antenas, as energias do universo, mas com a consciência de que não mais poderia contar com elas, as energias. Definitivamente você estava mais abandonada de si mesma do que nunca. Entendo, de verdade, a sua depressão. A dor que provém da alma dos ossos e dos nossos centros todos inacessíveis por isso incurável. Essa era a sua tristeza. A dor do exilado. A saudade do não-sei-onde. A Melancolia metafórica, mas ao mesmo tempo muito real, que lhe esmagaria sem piedade num futuro bem próximo.

Veja, guardei essa foto sua no momento em que captava as energias.

 

 

 
 
Justine, a Melancolia carrega o medo nas letras que compõem essa palavra. Melancholia que não agradava nem no latim nem no grego desde quando nasceu e foi registrada em sua certidão já com um significado doloroso: melan(ós) ‘negro’, ‘funesto’, ‘triste’, ‘sombrio’ + cholē ‘bílis’, ‘fel’,’veneno’. Quem não tem medo disso tudo que faz o vivente carregar um fardo pesado e invisível dentro de um exílio imaginário que pune o melancólico por um crime que desconhece ter cometido? Vi você assim, Justine... desnuda literalmente, sendo carregada para o banho sem sentido, pernas que recusavam suportar o corpo, pés sem impulso cósmico para a passada necessária ao minuto seguinte.

Ontem, de novo, pensei em você quando uma amiga me falou que não estava se preocupando com mais nada. Entregava os incômodos ao universo e dizia “tudo passa”. Repetia “tudo passa”. Olhei nos olhos dela e revi os seus. Tudo realmente passa mesmo que seja por cima de nós. Cada ser – humano - tem que viver com seu próprio momento, bom ou ruim, embora alguns procurem e sejam ajudados quando tudo parece nada. Mas não adianta porque nós sabemos o que sentimos. Os outros seres apenas sentem e percebem a si e ao mundo, mas não têm ciência disso. Saber sentir. Saber que sente. Elaboramos o que vemos e sentimos pelo tal do “eu”. É a isso que chamamos de consciência.

Penso no seu criador agora. O deprimido Lars. Ele disse que nascemos com uma sentença de morte, ou seja, a consciência de que a existência tem fim e que ninguém quer ser finito. Em verdade ele usou você para dizer isso ao mundo naquele dia. Muitos não ouviram e preferiram viver na ilusão. Achei muito engraçado, porém verdadeiro, ele dizer que os psicoterapeutas, quando consultados, dizem que a ansiedade e a depressão são perigosas, mas não significam o fim do mundo. No entanto, estão enganados. Redondamente, assim como Terra e Melancolia. Claro que você fez o papel que ele quis. Interessante essa relação entre criador e criatura. Mas você contra-atacou ao tomar consciência de que lutar com o inevitável é mais desgraçado do que tudo.  Aí você entra num invejável estado de serenidade e de ajudada passa a ser ajudadora.

Foi ótima a sua mudança. Lembra de quando você se despe, simbolicamente despojando-se das vestes, e vai andando pelo bosque e deita-se sobre um pedaço significativo de rocha à beira de um rio? Perfeito momento de entrega e conexão com o universo. É isso. A serenidade nasce da aceitação e da entrega. Entenda que falo de aceitação e não de resignação. Num outro dia, distraidamente você se senta na murada dos jardins do castelo e fica balançando as pernas como uma criança que aguarda. Você olha para os longes celestes... e parece nem pensar em nada, em ser nada. Naquele momento apenas é.

Acontece então o já sabido. Tudo o que se passa naquele dia passa sobre você. É o esmagamento literal de tudo. É o fim. Bem que eu queria lhe falar sobre esse fim que não é fim, porém começo (ou recomeço). Mas não sei onde você está agora nem como está.

Vou depositar esta carta sobre uma montanha bem alta, se eu tiver coragem suficiente para escalá-la, e esperar que você a recolha e leia. Não posso ir ao correio ou enviar pela internet porque não tenho o seu endereço exato... Pode ser que as conexões todas tenham caído. Ou pode ser que as conexões todas se iniciem agora.

Antes de finalizar quero agradecer a sua companhia naqueles dias que duraram apenas duas horas para mim e para outros que realmente lhe viram e lhe sentiram. Quando eu crescer, quero ser valente como você apesar de todos os pesares. Também quero dizer que tive um ancestral com o seu nome o que nos faz ter algo em comum. Chamava-se Justinus Kerner, viveu no século XVIII, alemão, poeta, médico que se interessou por um monte de coisas que diziam ser estranhas – porque não compreendiam. Onde você estiver e se por acaso o encontrar, pergunte-lhe sobre A Vidente de Prevorst. Daqui a três dias (18) seria seu aniversário de nascimento, caso estivesse entre nós. Talvez esteja e não saibamos. A gente nunca sabe, amiga.

Um grande abraço cheio da luz que você merece por tudo o que viveu, por tudo o que ensinou.

                                               Neuzamaria Kerner.


p.s. Justine é personagem do filme Melancolia, dirigido por Lars Von Trier.



(Neuzamaria Kerner é poeta e professora de Língua Portuguesa. Participou de várias antologias e publicações, sendo uma das precursoras da Revista Diversos Afins. São de sua autoria os livros de poemas Fragmentos de Cristal e Eu Bebi a Lua)





Desenho: Constança Lucas







JANELA POÉTICA (II)


 

CÓDIGO


Nilson Galvão


Cifra de dores: memória.
Carne pisada, repisada,
roxa de tanto.
Memória cifra de antídotos:
duplos de dores, gozos.
Cifra de gozos: memória.
Carne tocada, retocada, 
rubra de tanto.
Tamanha carne para tudo
que se imprime.



(Nílson Galvão, jornalista e poeta, tem um livro – “Caixa preta” – lançado pela coleção Cartas Bahianas, da P55 Edições, e em 2009 foi menção honrosa no Prêmio de Cultura e Arte do Banco Capital. Publica regularmente poemas inéditos no seu blog. Eventualmente, tem publicado também no Facebook (/nilsongalvao). Está convencido de que a poesia venceu!)







Desenho: Constança Lucas








APERITIVO DA PALAVRA


ENTRADA PROIBIDA A PESSOAS COM OS PÉS NO CHÃO

Por W. J. Solha




 


No novo romance que saiu agora pela Record, Carlos Trigueiro - apesar de confirmar que sempre se deixou e se deixa conduzir por invisível mão machadiana - reafirma-se como criador raro: pode-se assegurar, logo à primeira vista, que qualquer página de Libido aos Pedaços tem estilo tão pessoal quanto um detalhe de Warhol, Aleijadinho, Gaudí ou Philip Glass. É visível o esmero com que o autor elabora cada frase, até que o efeito especial esperado lhe aflore.  Se me deslumbravam, quando menino, versículos como “Há três coisas que me maravilham e uma quarta que não entendo”, pinçada por meu pai nos bíblicos Provérbios; se me alumbraram, depois, achados de Guimarães Rosa, como “Coração de gente: o escuro, escuros”; e os de García Márquez: “El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre”, imagine-se a sensação de reencontro de qualidade, quando li esta descrição que Otávio Nunes Garcia,  narrador de Trigueiro, faz da bela cunhada (e psicanalista) Larissa:

... maçãs do rosto colhidas do paraíso, boca profissional, lábios amadores, canto de sereia, olhos de gazela, nariz fatal, pescoço de garça, cabelos a cavalo, torso pintado a óleo, seios adolescentes, cintura a palmo, ventre livre, púbis selvagem, sexo alagadiço...

A evidente técnica machadiana da enumeração fica em suspenso, quando as palavras maçã e paraíso nos levam ao Gênesis, e gazela faz ver que o trecho (conscientemente ou não) tem o toque de um ponto mais para a frente, na Bíblia, o da justamente famosa descrição da Sulamita, feita por Salomão no Cântico dos Cânticos, que inclui:

... teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela...

Num dos soberbos contos de Confissões de um Anjo da Guarda – seu livro anterior - Trigueiro diz:

A distância custou-lhe vinte e oito libras, três quartos de hora e meia dose de paciência.

Estava, ali, clara – como observei na época -, a influencia do Bruxo do Cosme Velho, que escreve, no capítulo XVII do Memórias Póstumas de Brás Cubas:

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis.

Mas eu falei em “Técnica de enumeração”!  Em que consiste isso? Leia, em Libido aos Pedaços:

... como se a vida fosse um veículo dentro de outro. E eles trocam de marcha, nome, casa, carro, parceiro, clube, médico, doença, celular, idioma, religião, canal de TV, lugar no sofá, emprego, família, dieta, tatuagem, horários, travesseiro, advogado, tranquilizante, perfume, xampu, dentifrício, livro de cabeceira, computador, e-mail, senha de banco, profissão, amuleto, certezas, academia, dúvidas.

Isto é aplicação da estética do excesso à moderada técnica machadiana. Veja no Capítulo XIII, de Memórias Póstumas de Brás Cubas:

... a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las.

...Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições árduas e longas.

... Um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória.

Machadianamente, também, Trigueiro escreve, na nova obra, lá pelas tantas, depois de um enterro:

Finalmente, não mais que cento e poucos passos, três dedos de prosa filtrada no celular e dez minutos adiante, em todas as cabeças a consciência da morte deu de ombros, entrou no carro previamente estacionado ou pegou um táxi.

O curioso é que se tais ou quais refinados recursos estilísticos deram prestígio ao escritor num romance como O Livro dos Desmandamentos e em dezenas de estórias curtas, em Libido aos Pedaços nós o vemos, num pulo de gato, transferi-los para seu novo personagem, Otávio Nunes Garcia, entregando-lhe a narrativa.

Supõem que vivo a polir retórica para amainar tormentas da consciência. Suspeitam que meu floreado de palavras esconda sujeira. Vai ver sacaram tudo, direitinho.”

E, mais adiante:

... feérico, a possuí. Não com o falo. Só com a fala.

Destaque-se, sobretudo, que existe muito, no novo romance, das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Pela filosófica ironia ferina, pela família da elite carioca, pelos capítulos curtos, e pelo relato na primeira pessoa, feito por alguém que – se não nos está contando tudo depois de morto, como o personagem machadiano – bem... leia-se o livro.

E vamos em frente.

Página 56:

Otávio relembra o aviso afixado na porta do consultório de Larissa:
“Entrada proibida a pessoas com os pés no chão”.

Página 71:

Relembra das palavras do Dr. Guilherme Pessoa, ao recebê-lo em seu consultório:
            - “... aqui a entrada só é proibida a pessoas com os pés no chão.”

A frase – para mim - tem algo do Lasciate ogni speranza, voi ch´entrate (Deixai toda esperança, vós que entrais) que Dante lê na porta do inferno. Que inferno, aqui? O de sentir-se enlouquecer. Várias vezes Otávio deixa escapar a expressão “alienista” – como no título do célebre conto do criador de Capitu – para designar sua amada médica, depois o marido, que administram, um após outro, seu desequilíbrio mental:

Mas, doutora, aliás, Larissa, droga! Desculpa a minha confusão de você ser e não ser quem eu gostaria que fosse. Isso me põe louco!

Já não sei se o meu envolvimento com Larissa, de tão bom e bem dissimulado, foi mesmo real.
Capitu transou ou não com Escobar, no Dom Casmurro?
Mais adiante:

Em verdade, nós, humanos, passamos a maior parte do tempo no mundo psicológico, criando verdades sem alicerces e mentiras sobre vigas.

Isso ganha volume depois que Otávio participa da primeira reunião com a família da noiva, em que se incluem a futura cunhada psicanalista e sua mana mais nova:

Lá pelas tantas, beijinhos e afagos sociais, ao despedir-me com o sonoro cumprimento de boa noite a todos, percebi que, assim como as três irmãs, eu também levitava meio palmo acima do chão.

Bem.

Falamos em inferno e me lembro de que na sua velha Teoria do Romance, Lucáks observava que o herói demoníaco é um louco ou um criminoso. Assim, à galeria de notáveis como Quixote, Vitorino Carneiro da Cunha, Príncipe Mishkin e Raskolnikov, pode-se agora inserir esse Otávio Nunes Garcia... e todos os seus coadjuvantes, pois ninguém de perto é normal.

De perto, mesmo. Pois Otávio diz:

... vasculho mochilas, baús, escaninhos, pilhas, cortinas, brechós e sebos da memória.

Há um diálogo de Débora com o marido Otávio – o narrador, que é biólogo – maravilhosamente esclarecedor:

“Você sabe que não comento insignificâncias, querido, isso é coisa de quem não sai do microscópio”

“Mas , minha flor, é ali no microscópio que se vê a origem das coisas, da vida, do mundo, e, bem de perto, como se formam e em que se transformam as insignificâncias.”

O grande lance do novo romance de Trigueiro, aliás, além da surpresa final e da acuidade do autor, é o texto em si. É inevitável o uso frequente dos botões Pause e Replay quando o lemos, pois, como acontece com preciosidades das histórias em quadrinhos, nas quais não podemos deixar de nos deter nos desenhos de virtuoses como Will Eisner, Alex Raymond, Milo Manara, Esteban Maroto, Franco Caprioli, ou Albert Uderzo, paramos, frequentemente, para voltar e degustar melhor o que acabamos de saborear em avant-première. Sabiamente, porém, o autor se interrompe sempre que se vê no perigo de cair na rotina, passando a criar diálogos com outro tipo de maestria, aquela em que evita qualquer rubrica (indicações de cena, no teatro), expondo-nos única e exclusivamente as falas dos personagens, em itálico, num despojamento que exacerba o de Hemingway. Quando são apenas dois os interlocutores - quase sempre nas sessões de psicanálise – Otávio começa por nos colocar a situação, como se faz no teatro, depois do que um dos personagens diz alguma coisa, o outro faz sua réplica, segue-se a tréplica, e a coisa flui. Mas de repente estamos num encontro de família com o mesmo Otávio, todo mundo falando ao mesmo tempo, e aí? Aí você se lembra de Mozart dizendo, no filme Amadeus, que a ópera "Bodas de Fígaro", que acaba de compor, tem solos maravilhosos, duetos idem, também trios, “mas imagine o que são quatro, cinco, seis, setes pessoas cantando coisas diferentes ao mesmo tempo!” Pois bem, e o que Trigueiro apronta, nessa ocasião? Serve-se, mais uma vez, de um sutil macete do teatro, como no início do Hamlet:
  
- Bernardo.
- Ele.
- Chegou na hora.
- Meia-noite, Francisco. Vá se deitar.

Ou seja: passa-nos a informação sobre quem fala, a cada momento, sem fazer qualquer indicação explícita a respeito, ganhando a cena, com isso, vida e agilidade. No meio da conversa de todo mundo com todo mundo, por exemplo, alguém diz alguma coisa inconveniente e recebe uma “chamada”:

“Minha filha, temos visita!”
“Relaxa, Mamy!”

Words, words, words.

Por isso é genial o momento em que Otávio – produto absoluto do próprio discurso – revela-nos, coerentemente, ao entrar em coma:

 Estou perdendo o domínio das palavras.



(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal)









Desenho: Constança Lucas

 






JANELA POÉTICA (III)


FUGA

Sônia Barros


Ao som intenso do concerto
para viola e oboé de Bach,
embora allegro,
                        escureço.
Conheço o meu avesso:
vejo de perto os longes,
sorvo o eterno
no vórtice de um instante.
         
mal-estar bem-estar não-estar
       
Sofro
no peito o sopro de Deus:
lava-larva
transbordante
à força do compasso
em que navego:
                        fuga de alma
 (nem sequer andante)
em corpo allegro.



(Sônia Barros nasceu em Monte Mor-SP. Formada em Letras pela Universidade Metodista de Piracicaba. Deu aulas de língua portuguesa durante dez anos nas redes particular e estadual de ensino. Fez teatro, dança e canto. Autora de literatura infanto-juvenil, tem treze títulos publicados e dois no prelo. Publicou em 2007 o livro MEZZO VÔO, editora nankin, premiado pela Secretaria de Estado da Cultura)





OUVIDOS ABERTOS

Por Fabrício Brandão  


MARIANA AYDAR – CAVALEIRO SELVAGEM AQUI TE SIGO

 

 


Podemos pensar numa série de adjetivos para qualificar o mais novo rebento musical de Mariana Aydar. Indo mais além, podemos até também tentar entender as razões que movem esse que é o terceiro disco da cantora.  O fato é que, com sua voz afirmativa e cheia de personalidade, Mariana promove agora um trabalho, como ela mesma sustenta, de banda, no qual muito de sua veia autoral aparece ali bem posicionada em meio ao ambiente de estúdio.

Desta vez, a porção sambista da artista cede espaço para outras possibilidades de cantos e arranjos. E não há ali uma perspectiva de burocratizar as coisas, tampouco torná-las impregnadas de um único conceito. O repertório, além de trazer canções de cunho autoral, tais como A saga do Cavaleiro, Solitude, Floresta, Cavaleiro Selvagem e Vinheta da Alegria, cativa também pela escolha feliz de preciosidades como Nine Out of Ten (da fase londrina de Caetano Veloso) e Galope Rasante (Zé Ramalho). Diga-se de passagem, esta última parece traduzir em muito o espírito do álbum, verdadeira sensação de que trilhar as veredas sonoras revela-se sina desafiadora, típica saga de um cavaleiro errante.

Mesmo distanciada do samba, Mariana reverte o compasso de Vai Vadiar (canção imortalizada na voz de Zeca Pagodinho) e põe uma outra dose de emoção para a música. As participações de Dominguinhos, do rapper Emicida e o auxílio luxuoso do maestro Letiers Leite, da Orquestra Rumpilezz, conferem ainda mais vigor ao disco.

Não é exagero dizer que Cavaleiro Selvagem Aqui Te Sigo evoca energias espirituais, tudo fruto do próprio momento de busca pessoal de Mariana. O resultado reflete-se num percurso sublime por algumas paisagens humanas, dialogando com temas ligados ao amor e outros tantos correlatos da alma. A devoção à figura imaginária e emblemática de um magistral cavaleiro parece servir bem ao ímpeto necessário de seguir adiante, experimentando caminhos, atravessando moinhos e seus inevitáveis ventos de esperança.






Desenho: Constança Lucas







JANELA POÉTICA (IV)


A CONQUISTA DA PALAVRA

Nestor Lampros


Para a palavra ser bem escavada
não se pode apenas esperar o dado
no desígnio aleatório da jogada.

Como touro no trabalho dos dias
ferido de ferro a palavra é faca
que desfaz antigas missões já concluídas.

É falar deste cão irritante que escapa,
no encanto elíptico da palavra,
não nos omitindo, mas presentes.

Em cada azul dentro dos céus que chama,
fixa conquista dos significados:- Ata
este labor sobre a terra transparente.


(Sou arte-educador, poeta, artista plástico e quadrinhista. Desde o começo dos tempos venho cogitando e aceitei o desafio. Hoje sou poeta. Amanhã tentarei roubar um pouco dos sóis em minha cidade. E queimar a alma idiota das nuvens que não concebem o óbvio: nascer uma segunda vez - termo. Plena chuva do vento/tempo. Em Atibaia, minha textura, meu sal de suores noturnos, minhas vestes de penumbra, meu recolhimento tácito...)






Desenho: Constança Lucas







PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


Seduz saber que o marco fundamental das letras está refletido no plano de nossas humanas idades. E reconhecer a gênese das palavras como instrumento inalienável dos homens é fazer uso do complexo e misterioso universo de possibilidades encerradas no mister literário. Produto da pulsão interior, a poesia sabe ser, em boa medida, o elemento reordenador do caos habitante em tantas almas. Nessa perspectiva, o olhar do poeta reparte dois mundos, o palpável e o abstrato. Este último, quiçá apreensível aos primeiros instantes de descoberta, por vezes não encontra respaldo no óbvio e tampouco se curva a definições meramente racionais.

É difícil não se estar munido dos sentidos abordados anteriormente quando percebemos a expressão poética de um alguém como Edson Cruz. Antes mesmo que possamos caracterizar os atributos desse poeta, voltemos os olhos para Sambaqui (Ed. Crisálida – 2011), obra que se afigura imensa pela propriedade de seus versos. Mais do que uma reunião de poemas, o livro direciona sua atenção à matriz primeira da criação, qual seja a perspectiva de vislumbrar o humano naquilo que compreende, a um só tempo, suas delicadezas e contradições. Cada palavra ali contida jamais se coagula ante a passagem de um tempo medido de forma intimista. Nas mãos hábeis do poeta, sentimentos antagônicos coexistem pacificamente sob a regência sonora das coisas que precisam ser ditas. Se tudo é produto de lucidez ou estranhamento, somente o autor poderá nos dizer. O fato é que, sem renegar o embate, o criador de Sambaqui provoca-nos por todas as frentes. Com toda a sua bagagem, marcada também pela atuação como editor e revisor publicitário, Edson Cruz publicou “Sortilégio” (Poesia – Demônio Negro/Annablume); “O que é poesia?”, como organizador, pela Confraria do Vento/Calibán; e uma adaptação do épico indiano, “Mahâbhârata”, pela Paulinas Editora. É a segunda vez que concede uma entrevista para a Diversos Afins. A passagem do tempo revela-nos agora um autor extremamente consciente do seu papel de esculpir palavras, tudo isso resumido num desejo de que a poesia jamais deixe de habitar nossas tenras existências.



Edson Cruz
Foto: Eduardo Komite



  

DA - Estranhamento ou lucidez: o que move o poeta de Sambaqui?

EDSON CRUZ - Olhar com estranhamento o que nos tornamos como espécie, como projeto de civilização, o nosso desumanismo (não confundir com o movimento criado pelo poeta Glauco Mattoso), não deixa de ser uma forma de lucidez. Estranhar o que vemos por aí e por aqui, bem do ladinho e até no espelho, é o primeiro passo pra se fazer algo diferente, quiçá, um mundo novo. Mesmo nestes tempos pós-utópicos em que vivemos.


DA- Diria que essa figura chamada pós-modernidade incita-nos ao exercício de um não-ser?

EDSON CRUZ - Fabrício, questão espinhosa essa que você me coloca. Se eu fosse sábio me empedraria, ficaria quieto. Mas como poetas não costumam ser sábios e gostam de escrever sobre o que não sabem (a linguagem é tão fascinante e o silêncio proposto por Wittgenstein não nos interessa) vou pedir ajuda a Platão e a outros amantes da sabedoria.

Para começar, devo reconhecer dois conceitos um tanto nebulosos em sua questão. O primeiro me parece que costuma ser usado indiscriminadamente. Se considerarmos pós-modernidade como o momentum insurgente onde os grandes sistemas filosóficos que pautavam nossa consciência e nossa ação deixaram de ter a eficácia e credibilidade que tinham, então, estamos nos entendendo (via Lyotard) e, sim, ela nos incita ao exercício de... e aí a coisa increspa novamente.

Bem, fui logo ali (no sec. IV a.C.) e pedi socorro pra Platão (note o paradoxo em relação ao enunciado) e ele me diz que se considerarmos o não-ser como uma alteridade – e não como nada, aquilo que não é – aí sim posso concluir a resposta e dizer que a pós-modernidade incita-nos ao exercício, mesmo que conflituoso, de uma ou de muitas alteridades, ou outros entes.

Então, me parece ser esse o desafio. Convivermos e dialogarmos com outros entes e paradigmas e não nos matarmos por conta das diferenças que faíscam e que podem ser uma riqueza em manancial.

Note que nada disso tem a ver com o que é chamado de Globalização ou Mundialização. Outro conceito por demais espinhoso.


DA - Em Sambaqui, é possível notar um poeta face a uma condição de maturidade criativa, sobretudo no modo como articula o enfrentamento com as questões da existência. Mesmo considerando que não existem criadores absolutamente prontos, como você se percebe agora?

EDSON CRUZ - Segui à risca o conselho de Drummond para não publicar antes do tempo. Claro, que cada um tem o seu tempo, seu Kairós que nem sempre coincide com Chronos. E isso, vejo em retrospecto, foi muito bom. Pude reescrever e dialogar com muitas outras poéticas (isso é essencial) e, por conta disso, deixar muita coisa de lado na busca de minha própria voz. Deixei de ser falastrão (observo muitas poéticas de hoje que parecem almejar a prosa. Acho isso um erro de avaliação) e minha busca no exercício poético é dizer o suficiente com a utilização do que é próprio da poesia, o ritmo, a sonoridade expressiva, imagens, uma possível concisão (que não deve ser confundida com secura do discurso) e não se furtar a temas que me parecem essenciais ao ser que se constrói no dia a dia do século XXI. Como já disse um Buda do séc. XIII, se você deseja saber algo da vida, deve antes de mais nada questionar-se sobre a morte. De certa forma, foi esse questionamento que saltou como tema recorrente em Sambaqui. Não sei se já estou maduro criativamente, creio sinceramente que ainda não. Mas, com certeza, estou mais maduro do que já fui um dia. Espero que, a partir de agora, não comece a apodrecer…


DA - Acredita que a apropriação do verso livre é um dos grandes problemas da poesia contemporânea?

EDSON CRUZ - Não exatamente a apropriação. O rompimento com as formas tradicionais e fixas no poema contemporâneo foi necessário e, em muitos aspectos, benéfico. Por outro lado, criou-se a ilusão de que escrever um poema seria algo fácil, já que não precisaríamos mais (em tese) obedecer a uma metrificação e a um esquema predeterminado de rimas.

Puro engano. As rimas continuam a existir, sejam as rimas soantes (consonância), ou as rimas toantes (assonâncias). Elas espalham-se pelo poema, pelo discurso poético, em lugares insuspeitados. Um bom poeta precisa dominar estas ferramentas, como um bom músico precisa dominar as notas, acordes e intervalos em suas múltiplas manifestações e modos.

É preciso, também, ter claro a diferença entre um verso branco ou solto (aquele que não apresenta rimas) e o verso livre. E é aí que o bicho pega, pois o verso livre exige um uso consciente e exímio para que a poesia possa se instaurar.

O verso livre segmenta o discurso, divide o próprio fluxo do pensamento e o deixa muito mais distante da prosa (por mais que visualmente não pareça), que flui linear e, normalmente, em linha reta. E isso precisa ser bem feito para não parecer um simples amontoado de frases, às vezes desconexas. O uso do enjambement, que rompe a unidade sintática, e multiplica enormemente os sentidos, também precisa ser feito com consciência poética, atento ao respirar e à exigência do poema que se vai construindo. Para que ao final, como dizia João Cabral de Melo Neto, você possa ouvir o clique do poema pronto, da caixinha se fechando.

Se ainda não respondi sua questão, vou ser mais direto. O problema da poesia contemporânea é um pretenso vale-tudo, sem o mínimo de consciência das especificidades da poesia e do fazer poético. Por isso que tudo soa meio prosaico, por assim dizer, e a poesia passa muitas vezes longe. Quando passa.


DA - A ideia da pura reinvenção do fazer poético, como um suposto recurso criativo, também não é algo que ajuda a elucidar a questão de modo razoável. Essa sensação de vale-tudo afasta cada vez mais a perspectiva de consolidação de uma nova geração de poetas?

EDSON CRUZ - É necessário reconhecer que as cartilhas parecem ter sido abandonadas (e isso é bom) e que cada criador em potencial precisa redescobrir seu próprio caminho. Claro que sempre tendo um olho na vasta tradição para continuar a aprender e evitar chocar o mesmo ovo travestido de novo.

Isso ficou especialmente claro para mim quando me propus a questionar poetas de várias linhagens, calibres e idades sobre o fazer poético. O resultado panorâmico lançamos em livro pela Confraria do Vento/Calibán com o título de O que é poesia?. Cada um responde à questão de uma forma. Indicam influências e recomendam leituras que pouco se repetem. É uma doideira salutar. Merecia um estudo mais aprofundado, cotejando inclusive a produção de cada poeta para percebermos se a concepção teórica e poética de cada um está de acordo com a sua práxis.

Apesar de tudo, há sim uma nova safra de poetas interessantes surgindo, ou consolidando suas trajetórias. É sempre complicado falar em geração, justamente porque fica cada vez mais difícil reconhecer padrões que demarcariam uma pretensa geração. No caso da prosa, isso também não é tão fácil (como pudemos observar com a celeuma gerada na recepção das antologias organizadas pelo maestro Nelson de Oliveira).

Por outro lado, nunca se publicou tanta poesia, em livros e na internet. Como não vemos críticos e jornalistas interessados (e preparados) em escrever e refletir sobre a produção poética atual, nos cadernos culturais de jornais e revistas, a recepção da poesia está seriamente comprometida. Creio ser o momento de os próprios poetas arregaçarem as mangas e começarem a ler e a escrever sobre o que está sendo produzido no momento. Se os cadernos pretensamente culturais recusarem os escritos, infestemos os sites e blogues afins. Ou a gente se Raoni ou a gente se Sting, como já disse o poeta Luís Turiba.


DA - Voltando a Sambaqui, percebe-se um contrabalançar de sentimentos dispostos no conjunto dos poemas. Refiro-me aqui à miriade de contradições próprias da natureza humana que no livro aparecem muito bem equilibradas. O que mais lhe atrai nesse jogo das nossas dualidades?

EDSON CRUZ - Particularmente, embora fique chocado com algumas manifestações e ações humanas, me interesso sobremaneira por tudo o que é humano. Com toda a sua beleza, dor e absurdo. Mesmo que, às vezes, tudo me pareça estranho, paradoxal e inconciliável. Apesar de Auschwitz, gosto do ser humano. Acho que essa abertura, coragem e generosidade, devam ser cultivadas por um verdadeiro poeta. São essas características que levaram Freud, um investigador radical da natureza humana, a afirmar que seja qual fosse o caminho que ele escolhesse, um poeta já havia passado por lá antes dele.


DA - Saberia mensurar o quanto seu olhar poético interfere na sua vida pessoal? Prefere aqui crer em redenção ou transformação?

EDSON CRUZ - O olhar poético é o que talvez me mantenha em estado de humanidade, apesar das demandas utilitárias e pragmáticas da vida compartilhada em sociedade. Soube domar certa ingenuidade juvenil que a poesia instaurava em mim e direcionar o resultado desse olhar para uma poiésis, um trabalho com a linguagem e a palavra. Nesse sentido, sim, a poesia, a musa rara da poesia, me redime e me constitui no mundo dos homens com o melhor que há em mim.



DA - A ordenação do caos interior como fonte motivadora da criação lhe parece algo sedutora?

EDSON CRUZ - Eu tive um mestre em estética que dizia ser função do músico instaurar certa ordem ao caos que imperava no mundo. E assim, o músico ativamente começaria a temperar, a controlar o que na natureza repetia-se modificado.

A ordenação do material musical feita pelo músico pode ter sido o primeiro passo para sua interferência mais eficaz no mundo através da música.

Creio que o mesmo pode se dizer da criação como um todo e da criação poética em particular. Sem a ordenação primeira de nosso caos interior, a criação não se efetiva como interferência direcionada ao que está posto.

Sendo a comparação adequada, visto que a poesia veio da música e tende a voltar pra ela, se não fizermos esse temperamento de nosso caos interior não nos será possível erguer a catedral que almejamos construir.


DA - O escritor W. J. Solha, numa de suas crônicas, fala sobre a chamada angústia da criação, fase que instaura toda uma tensão em torno da elaboração de uma obra e a expectativa  de sua recepção. Acrescente-se aqui também a crença, disseminada por alguns, de que é necessário erigir uma obra monumental. Essa, digamos assim, exigência do ápice não é uma forma perversa de reconhecimento?      

EDSON CRUZ - Muito instigante o texto de W. J. Solha. O que ele menciona, de sentirmos quando falta alguma coisa no que acabamos de criar, é muito verdadeiro para mim. A cada poema que “termino” sinto o mesmo e isso me faz reescrevê-lo muitas vezes até que o abandone. Ultimamente tenho colocado o resultado de alguns poemas no meu blogue, o que permite que o leia com olhos de um terceiro e continue a mexer neles até ouvir o clique. É uma exposição sutil de minha própria incompletude, mas creio que poucos leitores se dão conta desse processo. Isso exigiria que ele fosse relido em dias diferentes, e ninguém tem tempo para tanto, não é mesmo?

Aliás, isso me dá uma boa ideia para o título de um próximo livro de poemas: “Poemas Abandonados”, ou “Abandonados”. 

Creio que todo artista deseja realizar uma obra monumental, no sentido de admirável singularidade, maravilhosa. A angústia, talvez, surja por sabermos que o desejo e a pretensão são quase sempre maiores do que a possibilidade real da fatura. 

Admiro autores que se depararam com essa questão e a enfrentaram sem condescendência, vindo inclusive a não produzir mais (ou pelo menos a não publicar), como por exemplo Rimbaud, J. D. Salinger e o nosso Raduan Nassar. 

Por outro lado, a única competição saudável é aquela que você instaura consigo mesmo. O passo de amanhã tem que ser maior do que o dado hoje. Sem essa busca constante de autoaprimoramento, o artista fica à mercê da perversidade do mercado, da história, da moda e do endeusamento/destruição da bola da vez.


DA - Você está em vias de lançar o site literário Musa Rara. Qual o sentido maior dessa sua retomada editorial?

EDSON CRUZ - Se fosse resumir em duas palavras, seriam: dialogar e interferir. Deixei o Cronópios, um projeto que me foi muito caro, não exatamente porque quis. Retomo agora, mais experiente, e tomando as rédeas do projeto como um todo. Na internet, precisamos compartilhar, mas alguém precisa consolidar direções, intuições e pressupostos. Não caio mais na armadilha de deixar que pessoas não afinadas e não apaixonadas pela literatura interfiram na edição de conteúdos que arregimentei e arregimentarei.

Por outro lado, é necessário interferir, e não ficar só lamentando e reclamando do jornalismo cultural praticado nas várias mídias. Há muito a ser feito ainda. Há inúmeros autores (nas várias regiões do país) criando algo de valor e que não conseguem romper os diques ideomercadológicos do sul-maravilha.

E, ao contrário do que postulou o jornalista Andrew Keen (Culto ao Amador), a internet não vai exterminar nossa cultura. Pelo contrário. A web inoculou nossa cultura de uma forma benéfica e sem retorno. A cibercultura já se instaurou e quero fazer parte dessa história.




Desenho: Constança Lucas
 






JANELA POÉTICA (V)


PARTIDA IMORTAL

Edson Cruz


desafio-te como um dia
fez o bardo.
tuas lendas, livros
tudo o que temos
são a aparência
da imperfeição.

serei lento, único
delicado artesão
oferecerei peças
atacarei com obstinação
lograrei o xeque-mate
tecerei uma obra
que te anulará
com um sopro.

algo
em mim continuará
permanecerá
zombando
de ti e de tua afiada
foice.






Desenho: Constança Lucas






INÚTIL DORMIR

Maria Lindgren


Se fico em casa, durmo, se saio à rua, tremo. É como se o solo em que piso, com suas diferentes dimensões, oscilações de superfície, me impregnasse o corpo sempre contra mim. Vivo porque devo; não, porque gosto. Além do mais, sou covarde com a morte. Prazer não tenho mais. Nem falar, nem rir, meu forte de toda a vida. Talvez cantar, que me traz esquecimento momentâneo do tormento, com esforço de moribunda.

O absurdo de remédios não me altera a dor, muito menos, o ânimo. Ou melhor, transforma-me em poço de letargia.

Acordo pela manhã porque é hábito da maioria dos seres humanos não notívagos. Saio da cama debaixo de gemidos porque tenho alguma gente a me esperar, seja para um comando doméstico, seja para um beijo de despedida e desejo de melhora.

Alimento-me porque é mecânico o ato de comer. Falo duas palavras com a empregada, volto a dormir o mesmo sono inquieto, medroso da dor de sentir dor e não poder andar, nem com a ajuda dos anjos.

As pernas me traem ao menor passo, ficam dormentes e atiçam o que sinto abaixo da coluna lombar, vale dizer, nas nádegas, aquelas de algum sucesso em minha juventude. Água quente, muita coberta e agasalho por causa do inverno tão desejado no calorão e hoje incentivo à minha inutilidade.

Telefone toca, acordo estremunhada, atendo, se não houver jeito de escapar. Volto à rotina dos medicamentos – está na hora de mais uma pílula ou comprimido – e a dormir no sofá da sala, para ver se posso, enfim, começar  o dia depois do meio-dia.

O banho fica para mais tarde, quando o frio amainar. Almoço o pouco que o estômago machucado pelos produtos químicos pode aguentar, para não adoecer de gripe, por exemplo, apesar da bendita vacina ingerida religiosamente todos os anos. Mal acabo a refeição e caem-me as pálpebras bêbadas sem álcool. Por três horas ou mais, fico meio estendida, calçada por almofadas, aquecida por manta e saco de água quente. Acabo com comichão alérgica de tanta quentura. Tome de anti-alérgico!

Sento-me para ver meus emails que mais amo, por meia-hora no máximo. Vou acumulando mensagens talvez alviçareiras. Minha própria literatura se nega ao destino de me ajudar a viver. Tampouco posso responder aos amigos reais e virtuais porque o tempo é curto demais e  a dor (ou o medo dela?)  me faz trancar a verve e a comunicação.

A companhia de um homem delicado não me emociona porque nada mais me toca. Uma lesma perdida na eternidade de minha doença.

Em todo caso, olho noticiários e filmes. Não quero decepcionar o companheiro mais ainda. Não memorizo sequer uma palavra atraente, uma cara interessante. Parece que fiquei “alzheimerada”. Quero dizer o nome de ator ou atriz do passado e a goela se fecha. Desejo contar algo de bom para o homem a meu lado que, coitado, me segura a mão, mas nem grunido consigo emitir. “Vazio pleno”, de Lygia Clark e outros. Pretendo levantar para esquentar água de novo, mas as pernas resistem e tenho que apelar para outrem, ação de inválida que detesto mais do que quebrar uma unha acima do sabugo ou verificar que a roupa de ontem não me serve mais, apesar da dieta.

Abro um livro de autor ilibado e não entendo uma palavra: por falta de cabeça e, pasmem, por conta de visão alterada, efeito colateral não descrito nas inúmeras bulas à minha disposição. Limito-me às manchetes dos jornais e elas me irritam pela repetição de ocorrências do noticiário da tevê. Nenhuma crônica de bom jornalista me é concedida.

Pior que tudo, não me queixo, nem me enfezo: fico muda de vez.

De repente, sem aviso prévio, a dor diminui. Abro a janela e me deparo com a nesga azul de um céu sem nuvens, ainda que o sol não bata em minha casa. Fico tão excitada que vou à missa agradecer a Deus o milagre. Choro ao comungar, de pura alegria. Sinto-me sem nenhum pecado a purgar.

Passeio devagar, tão devagar que os transeuntes me dão passagem, raridade no meu bairro. Acho uma beleza os mal-vestidos para o inverno de meu bairro tropical. Admiro as blusas colocadas umas por cima das outras, encimadas por casaquinho-padrão de moleton. Fashion Rio melhor do que a semana da moda. Encantam-me os shortinhos das garotas de belas pernas, agasalhadas da cintura para cima, em incoerência carioca. Vejo gente até mesmo em traje de praia e roupa sem manga, esquecida do ventinho que arrepia. Atravesso a rua, entro no meu Café entrada no céu. Cheio de gente de tênis e jogging, recém-chegados da caminhada abençoada. Regozijo-me com sua vivacidade oral e gestual, enquanto ingiro a rubiácea carioquinha, néctar para quem está mais de um mês de cama ou quase. Converso com as garçonetes, pergunto pela grávida de gêmeos, todas sorriem e me tratam como rainha de qualquer cocada. Posso ir para casa com esperança de tarde amena.

Melhor que isso, só carinho de mãe. Estou feliz de novo.



(Maria Lindgren é professora aposentada com Mestrado em Educação (PUC-RJ). São de sua autoria os livros “Uma Rolha na Lágrima” (2004 – Editora Mondrian/RJ) e “Habitantes de mim” (2008 – Editora MEMVAMEM/RJ). Tem textos publicados em sites e revistas eletrônicas)





Desenho: Constança Lucas







JANELA POÉTICA (VI)


FIM

José Bezerra Cavalcante


Infinito sítio, escuro.
Quietude e treva.
Sem ar nem céu,
ventre primal.
De resto, cinza,
e, fora, lousa,
balizando o tempo
com vencidas datas.



(José Bezerra Cavalcante é paraibano, de Esperança. Cursou línguas neolatinas na Faculdade de Filosofia e Letras na UFPB. Participou ativamente do movimento literoartístico Geração 59. Sua primeira obra poética, Baú de Lavras, só veio a lume em 2009, por ocasião do cinquentenário da Geração 59.  Em 2011, publicou Rescaldo pela Editora Universitária da UFBP)





DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Larissa Mendes



Amador (Amador). Espanha. 2010.



 


“As flores são a única coisa no mundo que seguem belas depois da morte”.


Elas celebram o nascimento, selam o amor e coroam a morte. Já foram retratadas, cantadas e poetizadas com exaustão. No entanto, as flores e principalmente suas metáforas – exalam todo seu frescor no mais recente longa-metragem do espanhol Fernando León de Aranoa. Amador ilustra com ternura a beleza e os espinhos de dois caules igualmente sedentos para que possam finalmente florescer.

Marcela (Magaly Solier) é uma imigrante peruana que mora na periferia de uma Espanha esquecida. Para sobreviver, ajuda o namorado Nelson (Pietro Sibille) a revender rosas descartadas por grandes atacados. Quando finalmente decide sair de sua zona de (des)conforto e abandoná-lo, descobre-se grávida. Incapaz de contar-lhe a novidade, aceita o emprego como cuidadora de Amador (Celso Bugallo), para ajudar nas prestações de uma geladeira nova utilizada para a conservação das flores comercializadas.

Ainda que emocionalmente discreta e de silêncios cúmplices, a curta relação que nasce entre cuidadora e paciente é afetuosa, a ponto do idoso notar-lhe a gravidez, coisa que Nelson foi incapaz de perceber, questionando apenas se a namorada havia engordado. Como confidencia nas cartas que envia a sua misteriosa correspondente Adela, Amador crê que Marcela seja paga apenas para discordar-lhe. Discussões, aliás, que retêm alguns dos melhores diálogos do filme, como a analogia do velho entre a vida e o quebra-cabeça que monta (“assim é a vida, colocar bem as peças”), sua teoria sobre as sereias, a crença de que Deus criou as nuvens para esconder-se quando sente vergonha (ao que em dado momento Marcela questiona-se: de vergonha do que ele ou os homens fazem?) e quando diz que morrerá em breve para ceder seu lugar ao filho que a empregada espera.

Pois o prenúncio de Amador não demora muito para confirma-se e Marcela para não perder o emprego e honrar a dívida que assumiu com o refrigerador nos próximos dois meses , mantém a mesma rotina de cuidados com Amador agora morto, escondendo-o dos olhares curiosos do vizinho e dos telefonemas da filha Yolanda (Sonia Almarcha). Sua única confidente é Puri (Fanny de Castro), prostituta de meia-idade que frequentava a casa de Amador semanalmente. Apesar da arbitrariedade da jovem (como alguém tão doce sustenta uma situação tão radical?), sua personagem não é hipócrita e seu desespero é quase tátil ao expectador (não por acaso, opta continuamente pelo assento que dá acesso à saída de emergência do ônibus que toma para o trabalho), sobretudo nas conversas com Puri e em sua pseudo-confissão a um padre, que ignora o literal “não deixo ele partir” ao qual Marcela se refere.

Escrito e dirigido por Fernando León de Aranoa, Amador será exibido nos próximos meses no Festival do Rio 2011 e na 35ª Mostra de Cinema de São Paulo. A película celebra a poética do cotidiano sem abandonar a militância social do cineasta , tratando vida e morte, velhice e juventude com a mesma serenidade. Com um desfecho surpreendente, abre discussão ainda para a solidão, a imigração, a ganância, a tomada de decisões e para julgamentos profundamente morais. E para não dizer que não falei das flores, Amador foi (e será) a mais bela flor cultivada no jardim de Marcela. 








(Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)





Desenho: Constança Lucas







JANELA POÉTICA (VII)


LÍGIA

Floriano Martins


Danças e teu vestido alarga a noite.
Costuras tua leveza em meu espírito,
sem que haja ressalva para o episódio
de teus lábios, córrego furtivo, relva
anunciada enquanto colas com tua saliva
um jogo de nuvens em meu peito.
Exaltas o que sou em disfarçado provérbio,
carícia que prolonga a noite, reflexo
de corpos caindo dentro de um poço
onde acumulas o carvão da dança.
Teu vestido alegremente exalta o vento
e o recolhe na sombra reservada ao sol.
Lábios que se abrem como um penhasco,
quase me reconheço em teu saguão visível.



(Floriano Martins é cearense e já publicou alguns livros, entre poemas, ensaios, traduções e preparação de antologias alheias. Coordena o Projeto Editorial Banda Hispânica. Tem uma incorrigível inclinação para envolver outras pessoas em tudo que faz, em decorrência do que certamente estejam em curso projetos dentro e fora do país, envolvendo a publicação de livros e a organização de eventos)




 


Desenho: Constança Lucas







CHÃO 

Petria Chaves


Aqui nesse planeta as coisas podem acontecer. A gente imagina e tudo se torna real. Mas cuidado com o que pede. Cuid... Eu dizia, eu queria dizer que o mundo poderia ser caramelo. Mas é cor de rosa. É novo. É abismo que se abre. Pra menina. Você vê? Ana, era uma pequena menina. Mas aqui nesse planeta coisas podem acontecer. Músicas tem cheiro. Cores tem sons. Tudo é um pouco confuso. Mas a gente aprende a viver. 

Quando o céu abrir sua primeira fresta, parecia inspiração. Toda força, mas a delicadeza era de uma lágrima. Tudo o que pulsava doía. Mas doer não era ruim. Também era parecido com música.

Que som tem a liberdade?

Aqui nesse planeta precisamos de chão porque é muito fácil sonhar. É preciso o substrato do que pesa e me faz lembrar: menina. Se esse por do sol pudesse ser mais bonito, acho que implodiria a poesia. Um brilho tão forte. Mas aqui nesse planeta o que existe fora só pode vir de dentro. Fiquei feliz ao saber que eu sabia brilhar.

Que cor tem a felicidade?

Eu podia falar e esperar o mistério. A falta de pressa em me apressar e dizer: preciso de abrigo. Preciso desse canto de segredo pra te contar. Sou assim, multiflorida. Um todo esquisito que se impressiona fácil. Com sua beleza. De dentro. 

Você sabe seu nome? 

Porque eu estou aqui sonhando vidas, tentando possibilidades de vidas e variedades. Felicidades. Ainda não consigo entender porque a gente tem que se prender. A uma história. A uma trajetória. Se o sonho é tão grande. O mundo é tão vasto. E eu aprendi a pular. 

Porque no som dessa guitarra que explode todas as cores do mundo. Nesse planeta é fácil sonhar. Mas as pessoas não sonham. Porque esqueceram que o caminho é fácil. Não é pesado. É etéreo e acontece dentro de mim. Dele, ali. Dentro assim tão leve, que a beleza pode nos espiar para dizer. Que a espontaneidade da beleza só pode existir enquanto o som puder ter a liberdade de colorir o meu caminho que me leva. Quando sono e realidade forem uma só verdade e o sonho, minha vereda, nosso ser tão. A magia de poder descobrir e mais. Descobrir e mais. Livre pra ser. E realizar as coisas que aqui podem acontecer. 


(Petria Chaves é menina, por vezes pedra, por vezes chaves, por vezes não sabe o que quer. É jornalista, está de mudança, está de cabelos em pé. Escreve prosas e contos por diversão, tenta virar vegetariana, mas não consegue largar os prazeres da carne)







Desenho: Constança Lucas







JANELA POÉTICA (VIII)
  

POEMA FURTIVO

Remisson Aniceto


O poeta ao falar de si fala dos outros,
que cada um tem um quê do outro.
Tudo é como se fosse um amarrio de cordas
seguidas, compassadas, continuadas.
O poeta ao falar dos outros fala de si,
que cada um outro tem um quê de nós,
cada um vive a vida alheia sem saber
e morre na morte do outro.
Cada poema é impessoal, é de todos,
ainda que impregnado de evidências da mão.
O meu seu poema dele não existe.



(Remisson Aniceto naceu em Minas Gerais. Mudou-se-se para São Paulo em 1979, à procura de trabalho. Premiado em concursos de contos e poesia, seus textos podem ser lidos em diversas publicações como: Revista Internacional de Poesía de Rosario Nº 18, Revista Partes, Revista Remolinos N. 4, Revista Cultural Amsterdam Sur N. 5, Revista Linha Direta, nos sites Auténtica Poesía, Antología de Grandes Poetas en el Mundo, Garganta da Serpente e outros)










Desenho: Constança Lucas





* A cada traço, a arte de Constança Lucas empresta tons sublimes à existência. Muitos de seus desenhos ganham significado especial sob a perspectiva da poesia visual, na qual seus elementos remontam a uma noção concretista. 

Portuguesa de nascimento, Constança também é ilustradora, poeta e professora de artes visuais.  Trabalha e vive em São Paulo. Em sua trajetória, participou de várias exposições coletivas em diferentes países, sendo que em Portugal e no Brasil, realizou mostras individuais. Entre poemas e imagens, muitos de seus trabalhos seguem publicados em jornais, livros, sites, revistas e blogs.



 
publicado por Fabrício Brandão
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