31 de out de 2011,23:28
SEXAGÉSIMA SEGUNDA LEVA



Foto: Márcio Vasconcelos





CICERONEANDO


Já lá se vão 62 caminhos descortinados pelas alamedas da subjetividade e da reinvenção da existência. Esta última, soa algo intangível, matéria pouco explicável de nossos sentidos esculpidos em mistérios. Dizer da poesia que governa as horas é dar vazão para que um tempo da delicadeza guie sempre os caminhos daqueles que ousam desbravar palavras. Aquilo que nos arrebata em meio aos diversos tipos de leitura encanta por promover experiências individualizadas nos mais intensos mergulhos de vida. Se soubéssemos o poder encantatório da palavra, quiçá padeceríamos menos de algumas mazelas da modernidade. E não está a se falar aqui de percursos oníricos ou místicos, como se tudo fosse reduzido  a uma experiência divinizada, mas numa perspectiva importante de redescoberta pessoal. Daí a missão valiosa de lermos o outro, suas especificidades, olhares, virtudes e equívocos, com a noção muito próxima de que nossos pares acabam por redimensionar nossa trajetória. E o propósito de seguir sempre adiante, sem perder o elo com nossas humanas idades, permanece a tônica dos propósitos editoriais da Diversos Afins. Vejamos, então, o quanto a verve poética de autores como Claudio Daniel, Lita Passos, Thiago Ponce de Moraes, César Cantoni, Romério Rômulo, Dheyne de Souza, Gustavo Felicíssimo e Denise Freitas presentifica o desejo permanente da transformação do olhar. Emprestamos escutas atentas aos escritores Rogers Silva e Rodrigo Novaes de Almeida, que falam sobre o valioso papel desempenhado pelo coletivo literário O Bule na seara virtual. No Drops da Sétima Arte, Larissa Mendes fala de um cinema que sabe a viagens perturbadoras do eu. W. J. Solha aponta caminhos para um percurso especial na poesia de Ivo Barroso. A prosa escorre íntima e reveladora nos cenários de Romulo Nétto, Rogers Silva e Rodrigo Novaes de Almeida. Tudo o que agora acontece por aqui ganha um sentido mais do que especial pela exposição dos trabalhos fotográficos de Márcio Vasconcelos, cuja série de imagens traz à baila um mundo rico de expressões contidas nas peculiares manifestações do sertão nordestino.  A você, caro (a) leitor (a), devotamos o prazer de navegar os mares da cultura!



*Comentários podem ser feitos ao final da Leva, no link EXPRESSARAM AFINIDADES.  




JANELA POÉTICA (I)


LETRA NEGRA

Claudio Daniel


XXIX


esta é a maneira de sermos brutais,
com a aspereza
de quem caminha
pelas ruas,
mascando lascas.

não preciso dar explicações
com palavras de madeira,
porque sou impuro
e espontâneo
como a fera.

esta é minha sombra magra, confesso,
estes, os meus passos desordenados.

nenhuma estrela para definir o dramatismo da noite
ao longo da jornada,
nem os ramos
de uma árvore inclinada.

quem considere imprecisa a descrição,
que escreva o seu próprio
rascunho,
com a fúria
violeta
do escaravelho.

sem contar nove vezes
menos um eco,
sigo minha jornada bípede,
de energúmeno.

nada aqui faz sentido para os meus lábios
vociferantes;

e como não venero
deuses de esterco,
nem as clausuras
cíclicas da história,

sigo andando
com minhas omoplatas,
minhas axilas,
meu caralho,

minha testa
desenhada
com símbolos alquímicos,

e este poema
escrito por Ninguém
nas linhas torcidas
de meus pulsos.

  

(Claudio Daniel é poeta, tradutor e ensaísta. Publicou os livros de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001) e Figuras Metálicas (2005), e o de contos Romanceiro de Dona Virgo (2004), entre outros títulos. É editor da revista eletrônica de poesia e debates Zunái  e mantém o blog Cantar a Pele de Lontra)






Foto: Márcio Vasconcelos






POIÈSIS

Rodrigo Novaes de Almeida


Palavras são pequeninas esferas vibrantes formadas na casca da fala. Como Saturno a devorar seus filhos. São pérolas no regaço carnal de uma consorte. Como Saturno a devorar seus filhos. Para fazer-se, desfazer-se e refazer-se o cortejo onírico. Como Saturno a devorar seus filhos. Ou um naco de aspiração diáfano. Nadir do canto e pranto, entram as musas. Nós, as graciosas esferas vibrantes, monumentais estádios etéreos. Nós, substrato. Nós, etos da poesia. Nós que aqui fazemos a vez do coro – obtempera/mento. Dá-Se a poesia. Como Saturno a devorar seus filhos. Canto encantado. Encanto cântico. Encantamento. Como Saturno a devorar seus filhos. Potência cosmogônica a velar-des/velar-re/velar o Ser. Como Saturno a devorar seus filhos. Através de um pátio oco luscofusco. Como Saturno a devorar seus filhos. Resguarda-se o limite sob um domo, aviltamento do chão. Até estar outra vez no recobrimento concreto do mundo. Interstício do ânimo dos ruminantes. Trincadura orgânica do corpo metafísico – Imitatio Dei. Como Saturno a devorar seus filhos.



(Rodrigo Novaes de Almeida tem textos publicados em sítios literários e jornalísticos, como Le Monde Diplomatique Brasil, Portal Cronópios, Germina Literatura e Arte, Observatório da Imprensa, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou, pela editora Mojo Books, a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book, 2009), e, pela editora Multifoco, o livro de contos Rapsódias – Primeiras histórias breves (2009). É cofundador do coletivo literário O Bule e colunista do Página Cultural)





Foto: Márcio Vasconcelos






JANELA POÉTICA (II)


QUINTAIS DA INFÂNCIA

Lita Passos


De quintais, de saudades,
O carrossel da infância
Onde são vivas as raízes
Seiva, combustível...
Transporte do presente

No tempo, o carrossel voa!
Acenando janelas
Seguindo a rota
No eixo do destino

Nos varais dos quintais
Flutuam infernos
Flutuam céus
Vibração presente



(Lita Passos é Gestora de Comunicação, Administradora, Professora, Poeta e Atriz. Nascida em Cruz das Almas - Ba, publicou na Revista da Academia de Letras do Recôncavo – ALER (poesia e prosa - 2008) pela FTC, “Mão Cheia” (poesias e contos - 2005) incentivo FazCultura,  “Flores de Fogo” (Poesias) -  1994, Editora Nova Primavera, Coletânea Mapa das Ilusões com o livro Conteúdo Suspeito (Editora Nova Primavera) - 1992, “Nosotros - Antologia  Poética Brasil/Espanha” (Editora Pórtico) - 1996. Recentemente, lançou “Rosário de Lembranças” (Ed. Vento Leste), seu mais novo livro de poemas)







Foto: Márcio Vasconcelos






DROPS DA SÉTIMA ARTE

Por Larissa Mendes


Enter the Void (Soudain le Vide). França. 2009.



 


Onírico, inquietante, perturbador. Do ponto de vista cinematográfico, talvez nenhum destes adjetivos sejam suficientes para delinear a essência de Enter the Void. Isso porque o filme propõe uma experiência estético-sensorial ímpar e, como tal, difícil de ser verbalizada. Seja pela desconstrução do roteiro (iniciada pelos créditos finais), por sua edição frenética ou pela fotografia psicodélica, tudo é over: a julgar pelos coloridos neons japoneses, as infinitas tomadas aéreas (da cidade, dos cômodos e dos personagens) e as duas horas e meia de projeção. Tentativa ousada de colocar o expectador literalmente na perspectiva vertiginosa de um narrador junkie em sua derradeira viagem astral.

Desde que perderam os pais em um acidente de automóvel, os irmãos Oscar (Nathaniel Brown) e Linda (Paz de la Huerta) vivem uma relação quase incestuosa de tanto afeto. Tudo o que lhes resta é um ao outro, devoção esta selada ainda quando crianças. Oscar vive da venda de drogas na noite de Tóquio (de origem francesa, o filme é todo falado em inglês e em nenhum momento é abordado como o protagonista chegou ao Japão), enquanto Linda vende o corpo como stripper. Durante uma batida policial no bar The Void – que se revelará uma emboscada – Oscar é atingido por um tiro. Sob o efeito de DMT (dimetiltriptamina, droga alucinógena) e influenciado pelo O Livro Tibetano dos Mortos, acompanhamos, em primeira pessoa, numa colossal fusão de vida, morte e pós-morte, suas memórias e alucinações.

Não é de hoje que o controverso diretor franco-argentino Gaspar Noé procura surpreender o expectador. Basta lembrar do antecessor Irreversível (2002) – história toda contada de trás para frente – e equivocadamente simplificado como “o filme da cena de estupro de Monica Bellucci”. Novamente, aos mais simplórios, não me surpreenderá se Enter the Void for citado como “o filme onde um pênis em close copula diretamente com a câmera”. Apesar de sua pretensão artística, do forte teor sexual e da questão reencarnatória abordada, o longa não soa pornográfico, religioso e muito menos filosófico. E mesmo com um enredo um tanto abstrato e assistido fora da tela grande (já disponível em DVD), funciona como um game visceral e/ou um mantra desconcertante: de vazio já basta a vida.




 




 (Larissa Mendes é turismóloga, cinéfila e endossa o coro de Oscar Wilde, que definir é limitar)






Foto: Márcio Vasconcelos
 

 



JANELA POÉTICA (III)

Thiago Ponce de Moraes



SOB LUZ singularmente pálida
Escreves sobre olhos submersos de palavras.

Pálida lanças da janela
Um canto que movimentas quando grafas
Esta casa.

Numa mão a lança e noutra
A caça, escrita,
Escassa.

As folhas secas deixas na entrada,
Em folhas breves guardas tua fala.

Escreves.

Este animal te ataca
Até que tuas cordas corte,
A tua voz soçobre
E apenas o ruído sobre
Das páginas que um deus traga.



(Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Faz parte do Conselho Editorial da revista Zunái. Participou dos eventos literários Simpoesia (2008 e 2010) e Artimanhas poéticas (2009 e 2010). Tem publicações em diversas antologias e periódicos, com destaque para a Antologia Poetas Jovens (no papel rascunho), de 2006; Revista sèrieAlfa nº 33, de 2007; Antologia VacAmarela (trilíngüe), de 2007; Todo Começo é involuntário, antologia de poesia brasileira contemporânea, de 2011, dentre outras. Publicou os livros de poemas Imp. (2006, Caetés) e De gestos lassos ou nenhuns (2010, Lumme Editor). Prepara um novo volume de poemas: Celacanto; além de traduções de Emily Dickinson, Jeremy Halvard Prynne, Ralph Waldo Emerson, Hart Crane e Basil Bunting)






Foto: Márcio Vasconcelos






 
AS (IM) PERFEIÇÕES DO NOSSO AMOR

Rogers Silva


Eu te amo eu te amo eu te amo, saiba, insistia em dizer. Sei, murmurei. E eu também. Mas... (Um vôo entre as estrelas e o chão, ROGERS SILVA)



Seu amor me faz mal, Jalousie (sempre odiei seu nome, achava meio feminino). Anulou o que mais de essencial e prazeroso a vida pode (e pôde, antes de você) me oferecer. Sim, são reclamações, à altura dos instantes (e instante é tudo) que me fez perder. E ganhar, porque com você instantes de companheirismo e amizade eu pude (como não conhecera antes) ter. Você me faz falta, Jalousie. Três dias são o bastante para a dor entrar, e corroer. Três dias foram o máximo (em vinte e três anos) que ficamos longe um do outro. A falta que você me faz é semelhante ao mal que você me faz. A falta – a que fui obrigado a render – dói. A falta, a ausência doem, meu Cego-luz (prefiro assim). Com você, a falta do sublime, do transcendental. Sem você, a falta de você. Tudo é ausência. Como me acostumar a um mundo onde tudo é ausência? Com você (porque você insiste em não querer transgredir), a mesmice enfim. Seu amor é pouco: não se entrega. Às vezes preferiria que fosse uma paixão ardente, passageira, mas sublime, feita de instantes intensos e inesquecíveis. Seu amor é muito, e bonito: não consegue ficar sem mim. Seu amor é estranho, Jalousie. Está sempre adiando. Um dia (um dia em que não estarei) vai perceber que o amanhã não existe. Seu medo é maior que seu amor. Suas convicções são maiores (muito maiores) que seu amor. Seus preconceitos. Porém, seu amor me faz bem, Jalousie. Me trouxe calma e segurança num mundo outrora caótico, o mundo meu. Seu amor, meu Cego-luz, me faz muito bem: me fez enxergar beleza na rotina, no banal. Seu amor é banal. Tão banal quanto as tradições a que dá tanto valor. Tão banal quanto as leis e leis que tentam sufocar o amor (o intenso), e possíveis e infinitas concretizações desse amor. Seu amor é bonito, Jalousie. Um amor que suporta e perdoa e esquece tão facilmente. Um amor bonito, que acredita no renovar espontâneo do amor. Um amor ingênuo, abstrato, ainda livre da crueza do mundo. Livre das corrupções do mundo. Da crueldade do mundo. Livre. Seu amor é estranho, meu Cego-luz. Conforma-se com pouco. Conforma-se, às vezes, com o nada, e o nada me angustia. Com esse amor ganhamos força para enfrentar (juntos ou separados) o futuro. Mas perdemos o instante. Estamos sempre adiando o amor para um futuro, um futuro que não virá. O amanhã não existe. Com você passei a valorizar o dia-a-dia. Por outro lado, me afastei da magia. Aprendi, com você, a enxergar magia onde magia não havia. Mas anulei minhas fantasias, as grandes (que provavelmente nunca seriam realizadas). Com você, a esperança. Com você, a falta (tempos em tempos ela morre) de esperança. Jalousie, me faz bem o seu amor. Faz tão bem que assassinei os “amores (inventados) da minha vida”. Pois você (sem eu ou você querer) se tornou o amor da minha vida. Não precisei mais de viver de fantasias: você se tornou minha fantasia diária. Seu amor, porém, não excede: está sempre normal. É preciso deixá-lo por si só exceder, pois é no excesso que surgem a beleza e a felicidade extrema. Seu amor adia: não é um amor que valoriza o presente. Seu amor é desprendido. Seu amor é premeditado: vem ao meu encontro com a intensidade contada. Hoje, tanto. Amanhã, tanto. Seu amor é medroso: tem medo de mim. Tem medo de se aumentar. Tem medo da solidão e do abandono. Seu amor é covarde. É forte, pois não necessita de magia. Necessita, tão-somente, de se saber amado. Se tem dúvidas, chora. Se tem certeza, se fortalece, e se recupera. Seu amor é forte: me suporta. Seu amor é forte: está arraigado às suas convicções que nunca lhe trouxeram vida. Apenas segurança. Jalousie, com você eu posso dançar ou não dançar. Fazer ou não fazer. Com você não tenho vergonha de ser apenas eu. Com você posso andar descalça e não me constranger, pois a sua humildade me traz serenidade, e segurança. Me sinto segura com você: posso fechar os olhos. Me sinto fortalecida com você: enquanto estamos juntos, caminhamos juntos, sempre de mãos dadas. É, meu Cego-luz, a minha fortaleza: sempre espero (com razão) de você: “Eis o meu apoio”. Um amor pueril, de menino que não sabe nada da vida. Nem do amor. Um amor a la Jalousie, frio e forte. Um amor que necessita de manual de instruções: faça isso, faça aquilo. Não tem o encanto da audácia e da descoberta. É covarde, pois é insosso. É forte, pois perdura apesar dos espinhos do dia-a-dia. É um amor simples, despretensioso, que dá valor no pastel de todas as sextas-feiras. Dá valor no almoço de domingo juntos. Dá valor no encontro marcado. Porém desvaloriza e subestima a saudade: tem medo da distância, pois viciamos um no outro. Vicio só é vício quando se torna necessidade: temos necessidade diária um do outro. Seu amor é grande: nasceu grande, do tamanho da vida, tanto que a entregou a mim (está guardada aqui, na caixinha de anéis, protegida por minhas mãos. Vou levá-la comigo). Seu amor é paciente. Jalousie, seu amor subsiste aos meus ataques de fêmea ferida. Seu amor é maior do que minhas chantagens. Seu amor não se excede: não grita, mas chora quando há dor. Seu amor suporta, pacientemente, a dor. Seu amor é como sua beleza: constante, imutável. É impalpável: não tem como pegá-lo. Você, assim como seu amor, é admirável: não pela grandeza, mas pela simplicidade (em que há grandeza). Em seu rosto, como em seu amor, não há mau humor: está sempre disposto a sorrir, inclusive por entre as lágrimas e apesar de não poder admirar a beleza de uma flor. Seu amor é flexível, disposto a aprender, mas aprende devagar e despreocupadamente. Seu amor é inflexível, pois as aprendizagens nunca são concretizadas: espera por um momento que não virá. Nunca virá: o amanhã não existe. O que os outros pensam e falam é maior que seu amor. Acostumou-se a viver assim: tenso, preso, preocupado com as manifestações do seu amor. E por isso as manifestações do seu amor são poucas, quase inexistentes. Mas são muitas, a seu ver, e isso é tudo. Infelizmente é tudo para você, não para mim.

De alguém que não pretende mais voltar,
Dona.




(Rogers Silva é escritor, professor, pesquisador e publicitário. É um dos fundadores do coletivo literário O Bule. Publicou em sites, revistas e coletâneas, dentre as quais Retalhos (org. Edson Rossato), Portal Solaris, Portal Neuromancer e Portal 2001 (org. Nelson de Oliveira). É autor do livro de narrativas, ainda inédito, Manicômio)







Foto: Márcio Vasconcelos
 






JANELA POÉTICA (IV)

César Cantoni


Dichosos los no nacidos”,
decía mi abuela española,
que no había leído a Sófocles
–que dijo más o menos lo mismo
de un modo perdurable–
y que una vez abandonó su patria,
envuelta en el humo de los bombardeos,
para morir republicanamente en ésta,
triste y cansada de la vida,
con la fe intacta en la nada.


(Decía mi abuela española)



(César Cantoni nasceu em La Plata, Argentina. Sua obra poética compreende os livros: Confluencias (1978), Los días habitados (1982), Linaje humano (1984), La experiencia concreta (1990), Continuidad de la noche (1993), Cuaderno de fin de siglo (1996), Triunfo de lo real (2001), La salud de los condenados (2004) y Diario de paso (2008), dentre outros. Participou de antologias poéticas argentinas e hispanoamericanas. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês, italiano, português e catalão) 

  




Foto: Márcio Vasconcelos





 
PEQUENA SABATINA AO ARTISTA

Por Fabrício Brandão


Consolidar caminhos pela grande rede é tarefa deveras complexa, sobretudo pelo fato de que atributos como responsabilidade e ética devem andar bem alinhados aos objetivos. Qualquer suporte literário que se digne a trilhar caminhos consistentes, deve ter em conta a perspectiva da busca incessante pela qualidade. Nesse aspecto, o potencial humano afigura-se o motor principal de todas as ações, ressaltando elementos importantes como a pesquisa e o comprometimento com o respeito à inteligência dos leitores. Partilhando de princípios como esses, o coletivo literário O Bule vem demarcando percursos cada vez mais vigorosos no que se refere à divulgação de palavras e seus respectivos artífices. Com organização, esmero e olhares voltados para as boas práticas literárias, seus condutores acabaram criando uma rede própria de interações, pautada não somente nas manifestações textuais de seus colunistas, mas também na abertura de espaços a outros tantos autores que comunguem do espírito criativo ali reinante.

Num momento em que presenciamos a proliferação de múltiplas iniciativas na via eletrônica, a presença marcante de projetos como O Bule direciona as atenções para a realização das coisas num sentido mais apurado do algo diferencial, ou seja, um eixo de produção de conteúdos que demarque um efetivo diálogo com quem se lança ao desafio constante da leitura. Apostando nessa perspectiva, seus fundadores, Rogers Silva e Rodrigo Novaes de Almeida, ousaram tecer as tramas de um projeto que pudesse conferir à palavra um ambiente privilegiado de reflexões em decorrência dos saberes e sabores advindos das letras. É possível atestar tais observações quando se observa o modo dinâmico e constante com o qual as publicações todas se comportam no site. Ressalte-se, também, o forte canal comunicativo presente no modo como as redes sociais são utilizadas pelo coletivo, gerando um contínuo fluxo de informações e trocas de experiências. E para falar um pouco sobre as significativas ações desenvolvidas pelo projeto, bem como outros afins literários, Rogers e Rodrigo expõem suas impressões materializadas na breve conversa que agora segue.



Rogers Silva
Rodrigo Novaes


 

DA - Não há dúvida de que por trás de uma iniciativa como O Bule existem vontades humanas, histórias particulares de vida a mover os propósitos. Num ramo tão especial como a Literatura, em que medida os perfis pessoais dos fundadores provocaram o desejo de dar corpo ao projeto?

ROGERS SILVA – Desde que entrei no mundo digital com o propósito de divulgar, a princípio, minha literatura, eu tinha o interesse de criar um projeto que fosse muito mais do que um blog cujo objetivo seria divulgar meus próprios textos. Minha ideia era criar um projeto coletivo (e coletivo não só porque envolvessem cinco, seis pessoas), mas feito coletivamente: todos participando ativamente do seu funcionamento e, também, participando ativamente da sua divulgação, porque acredito que a divulgação é de extrema importância para o sucesso de qualquer coisa, desde um péssimo cd de sertanejo à boa literatura. E foi a partir dessa ideia do coletivo, e de conversas com o Rodrigo, que surgiu O BULE, um site coletivo que muito mais do que divulgar a literatura dos colunistas, também debate a arte literária e tudo o que gira em torno dela; divulga os textos de colaboradores; sorteia livros e lançamentos; resenha clássicos e lançamentos; promove especiais (como a Semana de Literatura Pornográfica); entrevista grandes escritores contemporâneos; sugere obras clássicas antigas e contemporâneas aos nossos leitores (por meio da campanha CorraAtrásDessesLivros); divulga os principais prêmios literários do Brasil e de Portugal etc. É difícil falar de que maneira a minha personalidade e a personalidade do Rodrigo, juntas, deram forma ao site. Talvez seja mais fácil falar como nossas personalidades, juntas, contribuem para o seu funcionamento... E não só a minha e a do Rodrigo, mas também a da Márcia, a do Ricardo, a do Geraldo, a do Parreira... Mas essa é outra questão.

RODRIGO NOVAES - Há uma proliferação de novos autores publicando por conta própria na internet, principalmente em blogs. No entanto, acaba que cada blog se torna uma ilha. A ideia de reunir, inicialmente, um grupo de colunistas fixos e, também, colaboradores, era criar um espaço em que esses escritores se reunissem e pudessem, juntos, divulgar os seus trabalhos. Se um blog pessoal de um autor é uma ilha, O Bule seria assim um arquipélago. Essa é a ideia. E a partir disso veio o projeto, não só de um blog (ou site), mas de usar as redes sociais (Facebook, Orkut, Twitter, Youtube) de forma integrada. Levamos três meses montando tudo, inclusive um cronograma que serviria de base aos colunistas, para que não existisse a possibilidade de um dia qualquer desses deixarmos o leitor na mão sem conteúdo inédito no coletivo literário.


DA - Em que dimensão a perspectiva da formação de leitores está situada no projeto?

ROGERS SILVA – A formação de leitores no Brasil é um assunto complicadíssimo. Aqui, nem a escola nem a família, que são as nossas duas instituições maiores, conseguem essa proeza. Creio que não seria O BULE a conseguir isso de uma forma ampla ou até mesmo reduzida. Claro que pode ser que o site tenha formado algum leitor, seja por meio dos textos dos colunistas, dos textos dos colaboradores, dos sorteios, das entrevistas, dos especiais ou da campanha de incentivo à leitura. Mas é difícil, ou mesmo impossível de mensurar isso. Se estamos conseguindo formar leitores de O BULE, que passam pelo site frequentemente e acompanham nossas postagens, isso já nos deixa satisfeitos.

RODRIGO NOVAES - Se for para trazer leitores para autores novos, o coletivo pode ser eficaz, mas para uma provável formação de leitores em geral não vejo nem O Bule nem nenhum outro sítio literário com essa finalidade. Quem forma, ou deveria formar, é a escola. Essa, é claro, é a minha opinião...


DA - Além dos colunistas de praxe, outros autores também desfilam seus textos por lá. De que maneira a figura dos colaboradores tem se firmado como um modo de redimensionar o papel do site? Quais os critérios de seleção empregados?

ROGERS SILVA - Desde o início, estava bem claro para nós (para quem participava dele nessa época) que o blogue/site não seria apenas um espaço onde os colunistas fixos divulgariam os seus textos e o seu nome, até porque para isso os colunistas tinham seus blogues particulares. Em O BULE, desde sempre, há espaço para os colaboradores (aqueles escritores que enviam os seus textos para serem lidos, analisados e, quiçá, publicados). O BULE é O BULE não só porque há um número x (as figurinhas carimbadas) de colunistas fixos que o mantém, mas também porque há a participação ativa de colaboradores, e quando digo colaboradores estou me referindo também aos autores e editoras que disponibilizam seus livros para sorteios; aos sites parceiros; aos escritores que se dispõem a ser entrevistados pelos colunistas ; aos escritores que são convidados para participar de alguma série ou campanha etc. O critério de seleção dos textos é, em primeiro lugar e acima de tudo, a qualidade literária. Porém, também levamos em conta se o autor valoriza o seu trabalho literário, se ele de fato dá importância à (sua) literatura, e para isso analisamos (quando isso é possível) o blog/site/Twitter/Facebook/Orkut do colaborador/escritor, não como uma forma de julgar o seu trabalho, mas como uma forma de sondar seu poder de fogo.

RODRIGO NOVAES - Os critérios na verdade são um: qualidade literária. Fora isso, os colaboradores, certamente, passam a espalhar também o coletivo ao divulgarem seus textos publicados lá. Algumas figurinhas acabam se tornando carimbadas. Por exemplo, antes de serem colunistas fixos, Parreira, Marcia e Ricardo chegaram a ser publicados como colaboradores. No caso do Parreira, bem lá no início mesmo, e logo logo ele entrou na trupe. Quanto aos bastidores do coletivo, são dois colunistas responsáveis pela seleção. Cada colunista, ou cada dupla, ficando responsável por diferentes tarefas para fazer o site funcionar.


DA - Por vezes, o espaço criado por sites e blogs apresenta-se “escorregadio” em função de muitos desenvolverem uma relação forçosa no que se refere ao retorno das atenções. Desse modo, fica aquela sensação de que alguns criadores necessitam ser lidos a qualquer custo, como se um jogo de autoestimas feridas desviasse o foco do que seja realmente importante.  O que pensam a respeito disso?

ROGERS SILVA - Sinceramente me custa entender o que seja uma “relação forçosa no que se refere ao retorno das atenções”, mas, enfim, não só os criadores quanto todos que participam em site ou blogue coletivo, como O BULE, somente participam, a princípio, para serem lidos e conhecidos. Essa é a grande motivação de qualquer escritor, seja ele medíocre, iniciante, famoso ou genial. E ser lido, a meu ver, é o que é realmente importante, porque literatura é a arte das palavras, que formam textos literários, e texto só é texto se existe alguém que o leia. Não sei se “autoestimas feridas”, mas disputa de ego sabemos que há em qualquer espaço em que interajam pelo menos dois escritores.

RODRIGO NOVAES - No nosso coletivo literário cada colunista tem seus dias fixos, e é responsável por outros tantos. Então, quem "brilha" naquele dia é o autor daquele dia. O grupo atual de O BULE é bem maduro e consciente do que é um coletivo. Trabalhamos bem isso. Somos colegas e admiramos os trabalhos uns dos outros. Quem costuma forçar a barra para chamar demais a atenção para si mesmo (até em detrimento de chamar a atenção para o seu próprio trabalho) acaba terminando sozinho.


DA - No trabalho de acolhida de textos e autores, certamente muitas descobertas surgem pelo caminho. O que observam como sendo um traço marcante dessa nova safra de escritores?

ROGERS SILVA – É triste ver que há tanto escritor bom nesse país. Sim, triste porque sabemos que poucos deles vão, de fato, ter uma carreira literária. E menos ainda vão conseguir sobreviver da literatura. Não consigo enxergar um traço marcante (no sentido de escola literária) na literatura brasileira atual, e muito menos nos diversos textos que chegam até nós. Talvez o traço marcante seja justamente essa diversidade de estilos, de vozes, de espaços, de ambientes; ou talvez o uso do pop como referência constante (o que não é tão original, já que o escritor mineiro Roberto Drummond já havia feito isso lá na década de 1970, e muitíssimo bem); ou talvez essa coisa em que tudo é misturado numa coisa só, que chamam de pós-modernismo.

RODRIGO NOVAES - Há mais de um único traço marcante, que vai desde a forma até as temáticas, mas vou destacar apenas um traço que considero essencialmente importante: poder de síntese. Os novos e novíssimos escritores – os bons – têm um poder incrível de síntese. Tem a ver com a leitura digital, com o novo tempo (e, também, com as nossas novas temporalidades). O autor prolixo morreu há duzentos anos. Então, não tente escrever como ele, a não ser que decida fazer uma paródia [risos].


DA - Estamos ainda bem distantes da possível consolidação de uma geração literária?

ROGERS SILVA – Depende do conceito de geração... Geração no sentido de autores da mesma geração (nascidos na mesma época) escrevendo com características e estilos semelhantes, usando de temáticas recorrentes, interagindo frequentemente com objetivos literários/editorais, não consigo enxergar, não, viu. Nem romances de geração, como o clássico “O encontro marcado”, de Fernando Sabino, já não se escreve e se publica mais. Ou estou por fora?

RODRIGO NOVAES - Tem sempre uma nova geração se consolidando, mas parece que neste século as coisas não estão ainda muito certas, não por não existir novas gerações literárias, e sim pela pulverização causada pela revolução digital e o ocaso da velha imprensa. Radical demais? Veremos...


DA - Outro dia foi veiculada uma notícia de que Umberto Eco estaria interessado em desenvolver uma versão, digamos assim, mais simplificada de "O Nome da Rosa". Segundo consta, a intenção seria a de lançar uma edição que contivesse uma linguagem mais acessível aos leitores, sobretudo os mais jovens. Que tipo de consequências um precedente como esses pode gerar?

ROGERS SILVA – Não vejo nada demais nessa prática: adaptar a linguagem de um romance clássico como “O nome da rosa” para o público jovem ou adolescente. É, a meu ver, uma forma de atrair esse público (que normalmente não é leitor) para os clássicos. Na verdade, essa prática é bastante comum, sobretudo na adaptação de clássicos para o público infantil ou adolescente. A única diferença aqui é que o próprio autor se dispôs a fazer uma coisa que comumente é feita por terceiros.

O que acho equivocado é o fato de obras como “Os Sermões”, de Padre Antônio Vieira, e “Os Lusíadas”, de Camões, serem exigidas em provas e concursos para adolescentes de 13 a 16 anos, por exemplo. Isso sim é um desserviço à prática da leitura.

RODRIGO NOVAES - "O nome da Rosa" já é acessível, não? Como não estou a par do assunto, prefiro não fazer julgamento. Mas no caso geral de se pensar em simplificar obras para alcançar um maior número de leitores (ou mais jovens), eu optaria por escrever uma nova obra para esse público.


DA - O Bule assinalou um significativo espaço de interatividade com autores e leitores. De que modo isso tem servido como um termômetro para os próximos passos? Há novidades em curso?

ROGERS SILVA – Há épocas e épocas em O BULE. Há épocas em que todos os envolvidos estão empolgadíssimos e, assim, jorram ideias e otimismos. E há épocas em que todos estão desanimados ou ocupadíssimos. Nessas épocas houve até a possibilidade do desaparecimento de O BULE, infelizmente. Ideias, temos de sobra (muitas delas, por algum motivo, ainda não foram concretizadas). No entanto, acredito que ideias e projetos são um perigo porque você pode se envolver tanto nesse momento que se esquece do mais importante, que é correr atrás, trabalhar, viabilizar a ideia de forma que ela vire algo concreto, um produto. Ideias e projetos para o futuro temos em demasia. Agora é saber se vamos ter disposição, disponibilidade e dedicação para concretizá-los. Sabe aquela pessoa que tem sempre uma boa ideia, um projeto para o futuro, e esse futuro nunca chega? Espero que O BULE não seja assim.

RODRIGO NOVAES - A proposta é tornar o coletivo cada vez mais referência no panorama literário contemporâneo, na Internet, como um sítio aberto e livre. Mas temos o projeto de criar, para 2012, coletâneas impressas dos colunistas e convidados com a marca O BULE. Livros publicados por uma editora e espalhados nas livrarias do país.



 

  

Foto: Márcio Vasconcelos






JANELA POÉTICA (V)

Romério Rômulo


estas manhãs que chegam pelas costas
nos trazem um poder sobressalente.
o ciclo biológico se fecha
em queixas e cardumes.
as faces, duras pedras de pó carcomido,
trazem visgos.
quando olho a montanha
refaço-me.
sou o que trouxe o osso da cadela
nas mãos.
meu estômago é leve, o intestino, bruto.
posso roer manhãs como moradas.

a cabra que alimenta meu coração
tem um salto de potro, um estado
de cão louco, uma avidez de flecha.

se penso a noite, a refaço pelas beiras.
os rios que me ruíram as sobras
não são vestais: são curtidos de visgos,
águas barrentas.

uns lençóis baratos recobrem meu silêncio.
um ananás do passado mostra a lucidez do meu corpo.

não vim ser anjo,
vim ser estardalhaço!

(para Patrícia, o que sou)




(Romério Rômulo: um poeta que, para ordenar o pensamento, tem sempre à mão os sonetos do Camões, o Augusto dos Anjos e o João Cabral. Seu mais novo lançamento é intitulado Per Augusto & Machina)







Foto: Márcio Vasconcelos
OUVIDOS ABERTOS

Por Fabrício Brandão


LIRA – JOSÉ PAES DE LIRA




Uma palavra e seus atributos de significado: lira. Primeira definição imediata e possível: instrumento musical de corda derivado de remotos períodos de nossa história. Segunda definição quase imediata e também possível: estado de coisas que remontam a uma noção de inspiração poética. Das alternativas apontadas, a que mais se assemelha ao sentido construído no trabalho autoral de José Paes de Lira, o Lirinha, sem sombra de dúvida, é a última. Egresso do vigoroso Cordel do Fogo Encantado, Lirinha expõe em seu novo caminho um desejo marcante de continuar a povoar seus destinos musicais com a companhia incessante da poesia. Se isso já era sua marca desde os tempos eivados da música teatralizada do Cordel, agora parece ganhar uma presença cada vez mais decidida.

Lira é um disco no qual o discurso denso povoa as mentes de quem ouve. Vale aqui apostar num arremate sincero e aguçado sobre os desvãos da existência, tudo amplificado por um amplo poder de sugerir cenários. Por que não dizer que estamos diante de um trabalho cujo apelo central está nas imagens? Sim. Por trás de cada uma das faixas, um roteiro de cinema acontece pleno e imaginável. Mas o interessante disso é perceber que os filmes possíveis não têm regra fixa para acontecer. Rodam autônomos e livres de amarras viciadas nos percursos pessoais de quem se permite a descoberta.

Viajando pelas estradas etéreas do álbum, experimentemos, pois, as vias de Ah Se Não Fosse o Amor, os sentimentos acelerados de Sistema Lacrimal, as lembranças dignas de um super 8 impregnadas em Noite Fria, os espectros filosóficos de Sidarta. Noutro ponto, reflexões pungentes da vida dançam ao ritmo de Ducontra. Em Valete, as participações mais do que especiais de Angela Rorô e Otto dizem do quanto estamos em constante suspensão em matéria de amor. Como num álbum de retratos, My Life traz o canto de João Diniz Paes de Lira, filho de Lirinha, a repisar os efeitos indeléveis da passagem do tempo. Há motivos de sobra para creditarmos a Lira a condição de um breve tratado sobre a existência, essa mesma que, num átimo de hesitação, pode se perder em vãs lembranças. Enquanto nos for possível agarrar instantes, que o façamos prenhes da poesia que nos assoma desavisada e indispensavelmente.


* Lira está disponível para download no site do cantor.







Foto: Márcio Vasconcelos






JANELA POÉTICA (VI)

Dheyne de Souza



Procura meus rasgos no que de imagem construo
Procura-te aberto no que de arremesso lhe firo
Eu sei de tua caverna, sei de teus escuros, sei de teu próprio riso feito
[mortalha

das penas podres das tuas asas caídas e revisitadas
Sei mas não as saberei mais assim como ninguém
O que pressinto é que te sabes vivo e que não raro acordo
como se lençol, alameda, babilônia, céu, terra, água, fome.
Sei de teu olhar e presumo tuas direções
E te vendo a minha retina te vejo espiar
Sei de tuas minúsculas, teus véus, bebidas, pássaros
Teu vazar meu verso
E quando pico alto
epiderme
tálamo
O teu sangue, a linfa, o suor, o cílio
fundam
sem saberem de si
territórios bastos.



(Dheyne de Souza está em Goiânia-GO, escreve principalmente poesia, tem trabalhado em artes plásticas e colabora nos ambientes de Histórias Possíveis e Vida Miúda com o pseudônimo de Ana)







Foto: Márcio Vasconcelos





 
DONA DÓ, A SENHORA DO TEMPO

Romulo Nétto


Ruim quinem cascavel. Bajulava diariamente com suas rezas estranhas Deus, o dianho; pensava passar a perna nos dois de conjunto soslaio performados no em sempre. Mal pintava o dia lá estava ela mostrando seu riso de dente só, cacarejando talequal galinha d’angola sem choco cometido.

Saía pro meio do cerrado à cata de frutas; se encontrava um pé das graúdas sobrecarregado, dançava nua com suas pelancas balançando aos quatro ventos em fúria plena desnaturada descontraída. Só. De crenças sabenças. Se ia perdendo se achando no seu tempo mundo.

Dona Dó. Apois! Via lá no meio do cerrado seco poeirento a céu descoberto um pé. Amarelinhas, amarelinhas estavam lá as gabirobas, irmanadas de fazer inveja a ouro. Se ia indo. Devagar. No sempre. Esbarrando em galhos, bugalhos colhendo flores, frutos, segredos. Fazendo amor dor. Dona Dó. Senhora do tempo. Perdendo os minutos de suas horas. Enlouquecendo sóis, luas. Sendo. Indo. Aqui, o desvão de sua demência. Ali, sua premonição tardia. No tempo. O vento. Dona Dó. O tempo, seus sofridos, perdidos amores. Dona Dó, a que já teve coxas rijas, seios duros empinados que só as águas do Urucuia, do Paracatu alcançavam beijar.

Pois que sim! Dona Dó; o tempo murchou seu corpo de tanto pecado ódio, economizados. Amou, desamou a peonada das Gerais como quem sobrolha estrelas num céu de quase abril despovoado de nuvens ou de lua, azulzim como água perdida do meu véio Chico.

Dona Dó! Sua ruindade foi herdada sabe-se lá de quem! Ruim quinem cascavel. Amou, desamou muitos homens. Não teve fogo suficiente entre as pernas pra prender um só; queria todos. Ficou na saudade. Vendo no cerrado seco poeirento as gabirobas amarelinhas amarelinhas, fazendo inveja a ouro. Dona Dó.



(Romulo Nétto é jornalista, mineiro, radicado em Cuiabá-MT. É autor de “Bom-dia, Senhor Presidente”, “O Infinito Desespero de Ementério”, “Tatão Malemais, o Capador de Anjos”, “Não fala comigo! a história de um autista”, “Tarenço, o Capanga de Lata” e “As Jagunças” (prosa), dentre outros, todos publicados pela Carlini & Caniato Editorial. Estão para ser publicados: “Antônio” (contos - nome provisório), “Os 7 Meninos do Sertão e os escravos da pedofilia” (romance) e “Torturados - tempos de bullying”)






Foto: Márcio Vasconcelos






 
JANELA POÉTICA (VII)


3 TANKAS DE GUSTAVO FELICÍSSIMO


na minha memória
persiste ainda a infância
e seus personagens
          o revoar de andorinhas
          e o perfume do café


***

em minhas retinas
descortina-se o sertão
em dia de chuva
          o povo em estado de graça
          dança na praça e festeja


***

sobre a marquise
muitas folhas ressecadas –
um pé de mandioca
          a vida não tem limite
          ou lugar pra acontecer
 


(Gustavo Felicíssimo é poeta e ensaísta.  Atua como preparador de textos para editoras e poetas, tendo colaborado para a publicação de diversas obras. Seus livros publicados são: “Diálogos: Panorama da Nova Poesia Grapiúna”, Editus/Via Litterarum, em 2ª Edição; Silêncios (haikai), Via Litterarum, em 2ª Edição. Venceu o prêmio Bahia de Todas as Letras, edição 2009, em duas categorias: Poesia e Literatura de Cordel. Venceu o Prêmio Nacional Patativa do Assaré de Literatura de Cordel (Minc). Teve o projeto “Dendê no Haikai” premiado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia)






Foto: Márcio Vasconcelos





APERITIVO DA PALAVRA


A luta dos contrastes na caça virtual de Ivo Barroso

Por W. J. Solha


Veja este meu quadro:


 



Foi ele (e outras inversões minhas) que me aguçaram o espírito no que li os versos iniciais do poema O MURO, de Ivo Barroso, na edição de 2001 de A Caça Virtual (Record):

Este muro começa
de cima para baixo:
a prumada mais alta
é o seu encaixe.

Seu limite na altura
é o seu alicerce.

Voltei à epígrafe do livro, retirada (sem crédito) de East Coker, o segundo dos Four Quartets de Eliot:

in my end is my beginning   

Tem a ver.

De repente dou com um trecho de poema longo (PAPEL & CHÃO), em que, em poucos e lindos versos, leio o que me custou um romance inteiro pra dizer: 




Resumo meu livro, pra que você veja o relato poético abaixo com o mesmo relevo com que o vejo: há dois irmãos nos anos de chumbo: Roldão, que parte pra guerrilha do Araguaia, Oliveiros, que fica, cheio de remorsos por não encontrar base teórica pra fazer o mesmo, enquanto escreve o roteiro de A Batalha dos Guararapes.

No entanto / não tivemos exílio / antes uma ausência permitida.

Não fugimos de noite / o passaporte era de nossa própria / senhoria.
Não nos tiraram dentes unhas pênis / antes nos deram passes mordomias/

Mas quanto mais deitavas e rolavas / mais na mente de noite mal dormias

Porque uma coisa (ao menos) bem sabias/ Estavas em Sião/ Babel ardia.

Meu deus! Faltara-me, e – se poeta finge a dor que deveras sente – faltaram também ao Ivo aquela luta dos contrastes tão bem resolvida por Che, no que apregoava:

- Hay Que Endurecerse, Pero Sin Perder La Ternura!

Veja como o Poeta começa seu poema É PRECISO:

É preciso ser duro
como a pedra
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte.

(...)

E é preciso ser fraco
É preciso ter siso
E simulacro. É preciso
Todos os dias vencer
Os deuses pigmeus/Golias

Nessas alturas já me era possível perceber que eu estava diante de um grande poeta, com poética firmada nos tais contrastes – Babel/ Sião, pigmeus/golias, É preciso ser duro, É preciso ser fraco. Tudo com as devidas inversões, como em  a pedra que parte/ como a parte da pedra / que penetra a parede / e a parte. Como no muro, cujo limite na altura... é seu alicerce. Como na dura percepção de que quanto mais deitavas e rolavas / mais na mente de noite mal dormias.

Não por acaso, deparo-me com esta expressão, na última estrofe de O MURO:

- Inverte-se.

Em LE TOMBEAU DE COUPERIN:

- o inverso.

Em SONETO EM VESPERAL:

- Inverso Chantecler.

Pistas. Como a do verso de Eliot!

LITANIA

Mística rosa.
Rubi. Diamante.
Um pouco de esposa.
Um pouco de amante.

Criada sua chave-mestra, o contraste, ele brinca, produzindo vários deles com outras obras de arte. Referindo-se à Divina Comédia, por exemplo, de clássico início...

Nel mezzo del cammin di mostra vita
mi ritrovai per uma selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

... Ivo, em NOVA PROFISSÃO DE FÉ...

... declara
ser bom poeta
na tela clara,
já não procura
a via reta
na selva escura.

Novo tema a ser contraditado, ele o encontra em João Cabral de Melo Neto, com seu famoso começo:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Como se aperfeiçoasse o ovo (o que ele demonstra ser possível), Ivo diz, por contraste, em A FÁBULA DO GALO:

Acontece, entretanto, que o meu galo
Não fazia a manhã nascer do canto.
Sabia muito bem que
Se cantasse
Ou se deixasse de cantar
- o dia
Rompendo as cercas do quintal
Viria empoçar-se em seus olhos de suspeita.

Mas... o desfecho é altamente poético:

(...)

Era quando lhe vinha da garganta
Aquele anseio de ajudar o dia,
E na sofreguidão que o exasperava
- sabendo embora que cantasse
Ou que deixasse de cantar –
Cantava.

Do mesmo modo, o poema OS CAMPOS FLORESCERAM me remete ao Trigal com Corvos, do Van Gogh, do qual Ivo tira os corvos de cima do campo, inverte o campo do ataque, e me faz lembrar – em versos extremamente bem concebidos - o início do Veludo Azul, de David Lynch:

Mas por baixo do trigo, mas por baixo
do verde ora perene das espigas,
como o fio escorrente de um riacho
Passa um conluio rubro de formigas.

Nada lhe escapa ao gênio. O bíblico Filho Pródigo é um problema resolvido? O dele, não:

(...)

notou nos olhares da chegada
o já pressentimento da partida.

Na primeira tocata de VISITAÇÕES DE ALCIPE, quem ele contraria é Poe em O Corvo, assim como contrariou o galo de João Cabral:

Busquei no estudo um bálsamo: no fausto
de meu estúdio à morta luz da vela
lia doutrinas de outros tempos e chamava
na mente por um nome, mas nada.  nem um corvo,
um mocho respondia.

Dante, Vincent, Poe, Cabral, os Evangelhos. Mas nem pensar num basta na ousadia dos contrastes. Poeta, Ivo Barroso poderia ter abordado o tema do Laocoonte como ele está na Ilíada de Homero e Eneida de Virgílio, mas – mestre da imagem poética – vai direto a esta vigorosa escultura, atribuída a três artistas de Rodes – Polidoro, Agesandro e Atenodoro (daí a desproporção dos personagens):






A mão direita afasta o ser em círculos
fechados contra o centro de si mesma.
Outros anéis — imóvel,
mantêm o pé na véspera do passo.
Do lado
onde o ofídio (mais olhos do que boca) ofende,






freia-o trêmula
a outra mão
— serpente do homem.







E leia o final... devagar:

Equilíbrio de forças sobre o nada
momento de estática — vida?
…esse braço que vai ceder
e
teima.

Poética da contramão, da inversão, do contraste!

Alumbro-me / de sombras (A UNGARETTI).
Como a um fruto / te decepo ao meio / o que gosto em ti / o que não gosto / metades sem sentido / ansiando pelo todo. (LÂMINA).

E uma obra-prima:

FINADOS

Os mortos nos visitam no seu dia
e deixam flores na portaria.
Depois em paz
vão almoçar na trattoria.
De nossos cimos
ainda ouvimos
sua alegria.
Mas já não rimos.

Dizer, porém, que a grande arte de Ivo Barroso consiste nessa... indústria, seria obscurecer versos que eu gostaria de ver isolados como jóias... em estojos com veludo azul:

 (...) dos versos em que os sons têm cores de aquarelas
(...) via os peixes azuis de rimas e assonâncias
(Isto é de OS POETAS DE SETENTA ANOS)

Este poste que fura um túmulo de luz
na noite sem mistérios
(ACALANTO)

Encerro:

In my beginning is my end.

Mas vou deixar você, agora, à sua própria sorte, no universo de A CAÇA VIRTUAL. Veja  – mas veja MESMO, veja cada um dos versos soltos, de-cu-pa-da-men-te  – desta pequena jóia:

VIDA

Crianças tagarelam no playground
uma formiga escala o himalaia de um vaso
a espinheira espalha a perplexidade de suas folhas bífidas
o mármore da janela espera outro milhão de anos

eu escrevo.



(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Recentemente, publicou seu mais novo romance, Arkáditch, pela Ideia Editora)





Foto: Márcio Vasconcelos





 
JANELA POÉTICA (VIII)


DUAS IMAGENS ABRASIVAS  

Denise Freitas
                         

ainda mais no alto em toda contraparte
e mesmo que de algum inesperado
o fogo lhe adornava

era contrário a bom disfarce

ainda mais no altar de todo cotidiano

portanto esses no mesmo esfumaço
suporta quase firme apostasia
prossegue a baixo e se desfaz



(Denise Freitas nasceu em Rio Grande (RS). Escritora e professora de história. É autora de Misturando Memórias (2007), Mares inversos (2010)) 






Foto: Márcio Vasconcelos




* Os caminhos fotográficos do maranhense Márcio Vasconcelos são preenchidos por uma sensibilidade ímpar, levando-nos a uma experiência intensa de descobertas. A profundidade e a beleza misturam-se, nos seus últimos projetos, aos temas ligados à cultura popular e religiosa dos afro-descendentes no Maranhão.  

O ensaio apresentado nessa Leva, intitulado Na Trilha do Cangaço – O sertão que Lampião pisou, foi um dos vencedores no XI Prêmio Nacional Funarte Marc Ferrez de Fotografia na categoria “Documentação fotográfica / registro das transformações do cotidiano na sociedade”. A intenção desse projeto foi resgatar e refazer caminhos percorridos por Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá e seus bandos, através da elaboração de uma trilha que ligará locais que foram simbólicos na história do cangaço pelos sertões nordestinos. Mais do que retratar um caminho eivado de memórias do sertão brasileiro, Márcio constrói um rico painel que exalta traços singulares do homem nordestino no que há de mais genuíno: seus ritos, crenças e modos de vida.


 
publicado por Fabrício Brandão
Permalink ¤ 9 EXPRESSARAM AFINIDADES

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